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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

22.10.21

Mais de Fernando Pessoa


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Loura e face que esfria
Cose, dobrada, à janela.
Se eu fosse outro pararia
E falaria com ela.

Mas seja o tempo ou o acaso
Seja a sorte interior,
Olho mas não faço caso
Ou não faz caso o amor.

Mas não me sai da memória
A janela e ela, e eu
Que se fora outro na história
Mas o outro nunca nasceu...

 

Fernando Pessoa

In Poesia 1931-1935 

Imagem: Momentary Glance by Morgan Weistling

20.10.21

Desafio "Arte e inspiração" #6

Diferentes infâncias


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                                                           O sobreiro - Rei D. Carlos de Bragança 

O avô contava ao neto as vezes que tinha esfolado as pernas a trepar àquela árvore. Até lhe contou, à laia de segredo, que era por isso que ela estava vergada e ela própria esfolada também. Era da quantidade de vezes que os miúdos subiam para os seus ramos. Mas, que tinha a certeza que também estava vergada pela tristeza que sentia por já não haver crianças que a quisessem trepar. Sentia, com toda a certeza, falta do calor dos seus braços e pernas, dos seus gritos de entusiasmo quando conseguiam chegar lá acima.

O avô perguntou ao neto se queria experimentar, o neto olhou para os ramos da árvore e não se sentiu muito seguro de que seria uma coisa correcta, nem era algo que  alguma vez tivesse feito ou que desejasse fazer, olhou para as suas calças e pensou no que a sua mãe diria se as esfolasse, para além da ansiedade que a ideia lhe provocava.

O avô, adivinhando os pensamentos do neto, teve pena das crianças que nunca saberiam o que era a liberdade de subir a uma árvore, e de esfolar um joelho que arderia como tudo, mas que daria tanto prestígio. Não tendo coragem de desafiar o neto para tal experiência,  mais por medo dos pais do que por outra coisa, deu a mão ao neto e voltando as costas ao secular sobreiro, continuaram o passeio pela bela e calma paisagem de uma pacata aldeia, tão longe e tão perto da buliçosa cidade onde as crianças não trepavam às árvores. 

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

13.10.21

Desafio "Arte e inspiração" #5

Limbo


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El sueño, Frida Khalo (1940)

De olhos fechados,  sonhei contigo. Miravas-me de um modo que eu não conseguia decifrar.  Pensei se seria amor ou se seria rancor, mas era com certeza um olhar intenso, um olhar perturbante.

Quis acordar, mas as pálpebras pesavam, não as comandava, não me obedeciam.

Senti-me a pairar algures numa outra dimensão, e com vontade de lá ficar. 

Foi quando o meu corpo estremeceu fortemente,  como se um choque eléctrico o tivesse percorrido. Senti o ar a invadir os meus pulmões e acabei por abrir os olhos, um sentimento de medo se apoderou de mim.

Ao abrir os olhos compreendi.

Afinal não eras a morte, mas sim a vida a chamar-me de volta.

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

 

06.10.21

Desafio "Arte e inspiração" #4

Ela


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40 anos - Fátima Mano

 

Era o mundo dela, onde se podia perder e encontrar                                                                                  Onde ninguém podia transpor a barreira de intimidade do seu "eu" eterno e maldito

Era a ilusão vívida por cansaço, por abandono da verdade dos outros                                                   onde só a dela era validada, com a volúpia a pairar sobre os sonhos e a transmutar a realidade

Era o mundo dela, e não quereria outro...

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

29.09.21

Desafio "Arte e inspiração" #3

Desespero


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"O Grito" de Edvard Munch

 

Estava preso na garganta, no pensamento, no mais recôndito do seu ser, do seu subconsciente. 

Queria soltar-se, queria largar-se pelo mundo mas estava preso. 

Preso às convenções, preso às boas maneiras e à boa imagem de quem nada sofre, preso à ideia de que ninguém esperava isso dele.

Mas, quando já era impossível retê-lo, quando o soltou, o espírito também gritou e acabou a sorber o ar com sofreguidão, como se há muito lhe faltasse.

E com este grito, as pedras estremeceram, os pássaros silenciaram, o vento cessou... e o mundo chorou.

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

 

 

 

24.09.21

O Sono e o Sonho de José Jorge Letria


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O SONO E O SONHO

A noite tem dois filhos: um chamado Sono e outro chamado Sonho. Gosta, quando o tempo está frio, de os agasalhar debaixo do manto de veludo negro que, umas vezes enfeita com estrelas brilhantes e, outras, com nuvens carrancudas.

O Sono e o Sonho, como todos os irmãos, têm as suas brigas e aborrecimentos. E porquê? Ora, por tantas razões! Mas a principal é esta: é que o Sono gosta de dormir a bom dormir e o Sonho tem o hábito de aparecer pelo meio a meter-lhe fantasias na cabeça.

Quando isso acontece, a mãe, que gosta que a tratem apenas por Noite, sem dona nem senhora atrás do nome, aparece, faz uma festa na cabeça de cada um, dá razão aos dois e depois aconselha:

- Agora vamos dormir, porque amanhã é dia de trabalho.

De quem os dois irmãos não gostam nada é de um primo que têm chamado Pesadelo, porque é feio, irritante e tem o costume de contar histórias de arrepiar que deixam os dois muito trémulos debaixo do manto da Noite.

Um dia destes, o Sono e o Sonho decidiram fazer uma partida ao primo Pesadelo. Sabem como? Fingiram que estavam a dormir muito descansados e deixaram-no aproximar-se. Quando ele se preparava para lhes contar uma daquelas histórias de pôr os cabelos em pé, saltaram os dois da cama com lençóis brancos na cabeça, mascarados de fantasmas e pregaram um tremendo susto ao primo mal encarado que passou muitos meses sem aparecer.

Nesse dia, a Noite cobriu-se com o seu manto de estrelas brilhantes e dormiu até de manhã com os dois filhos enroscados e felizes a seu lado.

José Jorge Letria. In. Histórias do sono e do sonho. Ilustração Justine Brax

22.09.21

Desafio "Arte e inspiração" #2

Estrelas e vida


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Stary night de Vincent Van Gogh.

 

Quando a 1º estrela apareceu, ela deu o 1º grito. a partir daí, as dores foram sempre aumentando até sentir que não aguantaria mais.

Entretanto, no céu, mais estrelas iam ocupando o seu lugar.

Quando sentiu que o seu corpo se desgarrava, fechou os olhos e deixou de sentir ou pensar por milésimos de segundo, para imediatamente se encontrar noutra dimensão, onde uma paz prevalecia.

Pacificamente abriu os olhos, para descobrir o milagre da vida. Um pequenino ser que respirava por 1º vez com os seus próprios pulmões, e que se lembrou de constestar a viajem que tinha acabado de fazer, exigindo tudo a que tinha direito.

Nesse momento, o céu estava já repleto de estrelas.

 

Texto no âmbito do desafio da  Fátima Bento.

17.09.21

Tardes de Setembro - Eugénio de Andrade


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Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
Meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade 
In "As Mãos e os Frutos"