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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

29.10.19

Sustos maiores


imsilva

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Susto maior; quando algo nos abana os alicerces, a estrutura sobre a qual assentamos, e ficamos a tremer que nem varas verdes ao vento,  com o coração a querer sair da caixinha. 

Foi o que me (nos) aconteceu este fim-de-semana. No sábado o senhor meu pai, lembrou-se de paralizar do lado esquerdo. A máquina (família) funcionou na perfeição , tudo muito bem sintonizado, passado 1 hora já estava enfiado no hospital a receber tratamento. 

Foi um sufoco até chegar ao pé dele ( já lá estavam os bombeiros) e verificar que estava a falar sem problemas. Fiquei mais descansada, porque convenci-me que não teria sido muito forte, e que havia hipóteses. Nada a ver, mas temos que nos reconfortar com alguma coisa.

Já mexe a perna, estou convencida que o braço irá pelo mesmo caminho.

Isto faz -nos balançar  e questionar a nossa mortalidade, principalmente  a mortalidade  das nossas pessoas mais velhas. Já escrevi sobre "Os nossos velhotes" mas, nessa altura era sobre o futuro, agora vi-me no presente e não gostei nada.

25.10.19

desafio de escrita dos pássaros #7

Chazinho?


imsilva

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Nunca fui de aceitar ordens só porque sim, já a minha mãezinha se queixava. Dêem-me consistência no que me ordenam e eu vou lá, se não, nada feito. E foi isso precisamente que me aconteceu no meu último emprego.

O patrão queria a toda força que vendêssemos compota de abóbora com amêndoa como máscara capilar (Sto Abrenúncio), e quando a D. Constança veio ao estabelecimento para tratar a sua gasta cabeleira, não sabia como convence-la a tal coisa. Eu tinha-a como uma pessoa inteligente e muito bem posta, até vergonha tinha eu de propor o tratamento exigido pelo meu patrão. Comecei com calma, e lá expliquei, com todas as palavras, que as últimas descobertas da ciência indicavam que a compota de abóbora com amêndoas, tinha umas características muito próprias para o couro cabeludo, e por consequência para os fios capilares, e que estava practicamente provada a eficácia de tal tratamento. O cabelo ficava docinho e com uma cor muito gira.

A D. Constança olhou para mim, abriu muito os olhos, e disse “ca nooojo”.

Aí decidi-me, pedi à pobre senhora que esperasse um pouquinho que eu não me demorava nada, e fui ao gabinete do meu patrão, despedi-me, assim a secas, deixou descair o duplo queixo, e enquanto não recuperava a fala, saí do gabinete, e ao passar pelo balcão onde estavam os benditos frascos de compota, peguei num deles (o maior, pois claro), dirigi-me à D.Constança e convidei-a, “quer vir à minha casa que eu faço-lhe um chazinho, e comemos a máscara capilar com umas tostinhas?” A senhora abriu novamente os olhos, mas desta vez foi de surpresa e satisfação, respondendo imediatamente que “seria um prazer”.

Já de casaco vestido e mala ao ombro, dei-lhe o braço e saímos do estabelecimento com um grande frasco de compota nos braços, e um grande sorriso na cara.

23.10.19

100 redondos


imsilva

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O número é giro e não resisti a comemorá-lo. 100º post, 10 meses. Para quem não publica diariamente, é um patamar confortável. Não sabia se chegaria cá, mas cheguei e lamento mas é para continuar, a próxima celebração será aos 1000, será mesmo? espero que sim. O convite fica feito, chá às 5, pipocas, mirtilos, gomas, e umas torradinhas de um pão que tenho ali da semana passada. Apareçam, prometo uns chapelinhos (daqueles, estão a ver?). Mais a sério, vocês são uns bons vizinhos, obrigada pelas visitas.

18.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #6

Um conto de amor


imsilva

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Amor

Éramos tão felizes, o amor é algo que não alimenta o corpo, mas já o espírito estava bastante confortável.

Era o prazer de olhar o outro rosto quando acordávamos, era o beijinho dado com o maior dos carinhos à ida para o trabalho, e era o conforto de adormecermos nos braços um do outro, quando o dia chegava ao fim.

Uma cabana

Quando não temos um castelo ou um palacete, quando não temos um solar ou uma bruta vivenda, quando não temos um andarzinho, ainda podemos ter uma cabana. E era isso precisamente que tínhamos, mas…era a nossa cabana. O nosso lugar, com os nossos livros e as nossas flores.  

Um…

Éramos realmente felizes, mas… quer dizer…faltava-nos uma coisinha que eu ansiava muito. Toda a gente, bem, quase toda agente tinha, e eu sonhava com isso a toda a hora, imaginava-o ali, na nossa salinha, todo bonito e bem cheiroso, que alegria que daria à nossa casa.

 Mas, não tínhamos vida para isso, fazíamos contas, esticávamos o pouco que tínhamos, mas nunca dava, havia sempre o medo das despesas que passaria a haver, e que temíamos não conseguir fazer frente. E eu envelhecia de ansiedade, ao ver por realizar tal sonho.

Até que um dia, ele chega ao pé de mim e diz-me que temos que falar. Diz-me que estamos a ser tolos, que nada é impossível, e que com certeza que com um pouco de esforço, tudo se resolve. Agarrei-me ao seu pescoço e com lágrimas nos olhos, depositei-lhe nos lábios o beijo mais doce e mais apaixonado que alguma vez existiu nos contos de fadas.

Passados nove meses, com o maior sorriso de felicidade na cara, entramos em casa com uma coisinha linda embrulhada numa mantinha cor-de-rosa.

Amor, perguntou-me ele, queres uma canjinha que fiz ontem à noite? Obrigada, é mesmo isso que me está a apetecer, respondi. Quando ele aparece à porta da cozinha, com a cara mais triste do mundo, e me diz, a canja está estragada, o frigorifico avariou.

17.10.19

A dor da estúpida morte!


imsilva

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Está madrugada morreu um menino de 8 anos. Depois de uns meses a sofrer e a lutar, o cancro venceu e decidiu por ele. Não teve hipótese de escolha,  não lhe permitiram esse direito.

Não o deixaram crescer, viver e ser adulto, alguém achou que não valeria a pena.

Como é que é? Como é que se compreende isto, como é que se enfrenta esta dor, como é que uns pais se recompõem desta pancada?

Pois é, eu sei, todos os dias acontece, só que não conhecemos. Mas não deixa de ser injusto!

11.10.19

desafio de escrita dos pássaros #5

O homenzinho


imsilva

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Ia à minha frente, de gabardina e chapéu na mão, era baixo, ou parecia, tinha o cabelo delambido, com risco ao lado, e colado à cabeça. Uma coisa farfalhuda acontecia por cima do seu quase inexistente lábio superior. A cara era de poucos amigos, pudera, não poderia ser de outra maneira, com a quantidade de inimigos que tinha.

Chegamos, olhamos à nossa volta, e mesmo à nossa frente erguia-se uma enorme porta cor de ferrugem, imponente, com umas ferragens enormes e um batente que metia respeito. Por cima via-se a palavra Purgatório. E oiço o homem sussurrar, com as lágrimas a virem-lhe aos olhos "o que isto me faz lembrar a bela frase que brilhava por cima da entrada do grandioso campo de Auschwitz, O trabalho liberta " e em seguida levanta o braço como se fosse fazer a saudação nazi, assustei-me, mas afinal era só para bater à porta, ou melhor, para tocar à porta, porque estava lá uma campainha.

Imediatamente a dita cuja abriu-se, e um ser nem branco nem preto, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, no fundo, nem homem nem mulher, olhou para ele e franzindo o cenho, perguntou-lhe, "Como te chamas? Eu não te conheço de qualquer lado?" ao que o homem respondeu "Chamo-me Adolfo e estranho seria se não me conhecesse, fui uma figura muito importante na terra, destruí e mandei destruir muita gentalha que andava por lá a conspurcar a atmosfera,  eu bem tentei limpar a raça humana, mas fui um incompreendido, e interromperam o meu belo trabalho. Estava a correr tão bem, os comboios sempre a abarrotar a caminho dos campos de concentração, que tão bem organizados estavam, era um regalo apreciá-los, com as câmaras de gás sempre a funcionar noite e dia, e para quê? para aparecerem uns desmancha prazeres e darem cabo de tudo, não sabem apreciar o esforço de um homem que só queria o bem da raça humana, que esta fosse perfeita, sem mácula, sem defeitos, gentinha de mente pequena..." e aí eu tive que me meter, dirigi-me ao nosso anfitrião e tentei que ele me desse ouvidos, " ouça lá, desculpe sei que ainda não é a minha vez, mas não acha que aqui o Adolfo, já disse mais do que suficiente, para saber o que vai fazer com ele, já lhe deu provas e motivos, a sério que precisam de mais alguma coisa? é que eu estou aflita para ir à casa de banho, e assim não estou a ver que chegue lá. Acho que o currículo deste individuo, já disse o bastante para tomarem uma decisão"  

Finalmente lá deixaram o homem entrar, e eu pude ir à casa de banho. Nunca mais vi o homenzinho, nunca mais lhe pus a vista em cima, o que espero seja sinal de que o mandaram para o sítio certo. 

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