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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

28.08.20

Dia de vento


imsilva

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Quando o vento se levanta e passa por aqui, peço-lhe que leve consigo os meus pensamentos, as minhas inquietudes e as minhas preocupações.

Mas ele diz-me sempre que só pode levar as folhas, o fumo, o nevoeiro e o ar cansado.

Por vezes, apanha no caminho algum passarinho mais desprevenido, que assustado, volteia no ar até encontrar o seu rumo novamente.

Também gosta de levar chapéus, vários chapéus, de sol, de chuva,ou os que periclitantemente se equilibram nas cabeças de alguns incautos que não acreditam na sua força.

Quando se cansa destes afazeres e brincadeiras, desaparece, e deixa-me os meus pensamentos, as minhas inquietudes e as minhas preocupações tal como estavam, e eu fico zangada por ele não me ter feito caso.

 

 

21.08.20

Mutações humanas


imsilva

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E aqui estamos, no admirável mundo novo, no ponto nunca imaginado.

Máscara no rosto, sorriso escondido, incógnito, e olhar estupefacto a interrogar o mundo.

Agora somos todos iguais, com o mesmo medo, ou quase, já nos cuidados, não tanto, e os hábitos em mutação e a enraizarem-se rápidamente.

As crianças habituadas é a parte gira. Viva as máscaras! Bendita a ignorância que serve para brincar aos heróis com liberdade.

O novo aroma a alcool gel entranhado nas narinas, e nos poros de todo o corpo.  Alcool diferente daquele que destilavamos na minha juventude.

Entretanto vamos habituando-nos à distância física, aos não cumprimentos, a uma certa frialdade que em nada condiz com a nossa condição de latinos. 

O isolamento vai cercando pessoas que não o merecem, e que pode ser o despoletar de doenças e males que poderiam ser evitados.

Mas o mundo pula e avança, aceitamos e vamos por lá, por onde nos dizem que devemos ir, e como sempre, adaptamo-nos.

Somos mesmo boa gente.

 

 

17.08.20

Será fé ?


imsilva

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Não sei se houve alguma ocasião em que a procissão da Nossa Sra. da Boa Viagem não tenha acontecido, mas este ano de 2020 não aconteceu.

Senti falta, senti que a vila este ano está incompleta, senti o vazio de algo que foi sempre o máximo dos máximos, as ruas e todos os cantinhos pura e simplesmente a abarrotar.

Quem por hábito, trazia o carro para o centro, neste dia não trazia, vinha a pé. Já sabia de antemão que não teria onde o estacionar. Encontrar-nos com quem nos queríamos encontrar, muitas vezes era impossivel, outras vezes um verdadeiro acaso.

Este ano há um défice no mês de Agosto, não houve luzes no mar, não houve os apitos dos barcos à partida e à chegada da imagem à praia, não houve a espera pelo fogo de artifício, que por vezes demorava, outras vezes não se chegava a ver por causa do nevoeiro.

Existe uma coisa tão pequena que nem se vê, mas tão grande que alterou o que (pensávamos nós) ser inalterável.

Senti-me triste por não ter havido a procissão da Nossa Sra. da Boa Viagem.

Senti que não há o direito de se mudar algo tão enraizado nos costumes dum povo, e isso não tem nada a ver com fé.

Quando a canção que se canta enquanto se acompanha a imagem, diz  " faz com que a guerra se acabe na terra" não havia quem não se arrepiasse e não acreditasse no pedido que toda aquela gente fazia nesse momento. E não sei se isso tem a ver só com fé.

É um povo que tem esperança, que se tem que agarrar a algo mais do que aos tostões que se contam, sempre na ilusão de ser mais do que se pensava, e que não vão poder homenagear aquela figura minúscula, tão colectivamente amada, tão colectivamente festejada. 

Todos se vão lembrar do ano em que a Santa não saiu à rua, o ano em que não houve festa, o ano em que todos ficaram mais tristes e mais pobres na sua efusiva religiosidade anual.

14.08.20

Marés


imsilva

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Há quem viva ao sabor das marés

Vão e vêm, conforme a maré sobe ou vaza

Eu prefiro fincar os pés na areia, e aguentar o embate da onda sem sair do lugar, até sentir os pés a enterrarem-se na areia mole.

Por vezes, até subir na prancha e cavalgar as ondas, domando-as, não me deixando domar por elas.

E sentindo-me orgulhosa por isso.

 

11.08.20

Pendurados num sistema roto


imsilva

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Há coisas que mesmo sabendo por outros, só quando nos tocam à porta é que entendemos realmente.

O meu pai não tem andado bem, cansaço e falta de ar. Há duas semanas esteve nas urgências, levou oxigênio, trouxe uma bombinha para casa e patati-patata.

Tem consulta em Pneumologia que entretanto foi adiada e ainda não remarcaram, e está à espera que em Sta. Maria o chamem para fazer exames em Cardiologia há meses.

Médico de família só lá para fim do mês e será por telefone (85 anos, queixas físicas e será "visto" por telefone). E o particular também com demora.  

A provável solução seria enfiá-lo numa ambulância e espetá-lo numas urgências de um hospital...só que não queremos fazer isso, seria mais ou menos como o levar para o matadouro.

E entretanto sentimo-nos de mãos atadas porque não achamos lógico ele continuar assim, sem um apoio médico imediato, que seria no mínimo, o médico de família o observar e dar indicações do que fazer a seguir.

Admiram-se de haver muito mais gente a morrer, sem ser de covid, do que seria suposto. EU NÃO!!!

03.08.20

Trabalhar em tempos pandémicos


imsilva

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Trabalhar em tempos de COVID é complicado.

Os clientes ou estão soltos de mais, ou com medo a mais, e isso para quem tem que lidar com todos eles é um bocadinho esquizofrénico.

Alguns quase que pedem por favor para tomar-mos decisões por eles, outros exigem coisas inexigíveis, e outros são pura e simplesmente parvos. Valha-nos os que sobram, os normais, que felizmente são em número razoável .

Veremos como se encontram os nossos neurónios no fim do verão.