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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

Novembro 21, 2025

imsilva

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Não sou de jogos de estratégia, mas hoje apanharam-me. Almoçarada com amigos e o sempre presente (para eles), jogo Catan, veio para desafiar os inocentes e ignorantes que não têm este hábito.

Só depois de estar no meio da brincadeira e das risadas é que percebemos que também precisamos disso. Nós, que passamos os dias no stress e na preocupação de 54 coisas ao mesmo tempo, descobrimos que podemos passar sem essas mesmas preocupações,  descontrair e fingir que as ditas cujas não existem, mesmo sabendo que amanhã estarão lá à nossa espera, sentadinhas à porta do quarto, a espera que abramos os olhos e nos espreguicemos.

Preciso, talvez precisemos todos de descontrair mais, de rir mais, de deixar 53 das preocupações,  e  ficar só com uma, a mais pequena, a mais leve, a que nos incomode menos. Isto só para não dizermos que não temos preocupações. Acredito que fica mal tal afirmação. 

Desmoronar

1 Foto, 1 Texto

Novembro 15, 2025

imsilva

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Quando com os netos brincamos a equilibrar cadeiras, para um dia conseguirem equilibrar acontecimentos, emoções, sentimentos baralhados a precisarem de uma estrutura forte para não desmoronarem.

Será suficiente para a sua vida? Com certeza que não, mas se servir para perceberem que mesmo com muita vontade e sacrifio as coisas podem desmoronar e não é por isso que devemos desistir,  já valeu a pena. 

A vizinhança

1 Foto, 1 Texto

Novembro 07, 2025

imsilva

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A D. Clotilde estava a par de tudo, tudinho, o que acontecia pela Rua da Esperança. Conhecia de ginjeira toda a vizinhança e todos os cadilhos que por lá aconteciam.

O Sr. Aurélio corria com quem se aproximasse da sua casa, fossem carteiros, testemunhas de Jeová, vendedores da banha da cobra ou os que tanto insistiam na mudança da empresa da electricidade, nem que isso fizesse com que não pagasse, ou até os que recorrentemente batiam à porta para que assinasse a televisão por cabo de que todos falavam, menos ele, que não queria mais do que a televisão que tinha. A D. Clotilde de tudo isso sabia.

A D. Margarida depois de ficar viúva, queixava-se da solidão, dos achaques na saúde, da falta dos filhos que nunca teve, e ia tratando de todos os gatos que lhe apareciam à porta. A D. Clotilde de tudo isso sabia.

O casal ao lado, com 4 filhos ainda pequenos, andavam sempre carregados de compras, o que é perfeitamente válido com tantas bocas a alimentar, e a tentar que os petizes não gritassem tanto enquanto olhavam à volta para ver se os vizinhos estavam à vista a fazer cara de quem não gosta. A D. Clotilde de tudo isso sabia.

Ainda havia o casal da ponta que de vez em quando se ouvia na rua inteira. Já não sabia quem gritava mais, se ele, se ela, era uma competição desenfreada. Os vizinhos, com muita diplomacia, já tinham tentado chamar a atenção para o desassossego que isso provocava, uma vez que ninguém tem nada que saber dos problemas que cada um tem em casa. No dia em que se percebesse alguma coisa mais pesada, teriam que intervir mesmo.

A D. Clotilde de tudo isso sabia, e assim seguia com a sua vidinha, que não era mais que vigiar esta pequena rua. Era a sua novela da manhã, da tarde, e por vezes do inicio da noite. Quando ia para a cama, imaginava aqueles lares e o seguimento das aventuras que de dia dava conta. A D. Clotilde vivera anos a tomar conta dos pais, primeiro do pai quando teve o AVC, e mais tarde da mãe quando o amigo Alzheimer foi entrando sorrateiramente nas suas vidas. Logicamente a D. Clotide não soube o que era ter vida própria, e agora já era tarde para rectificar as falhas que isso provocou no seu "eu". Antes de adormecer, pensava se no dia seguinte iria haver alguma novidade na Rua da Esperança e desejava que o dia depressa chegasse. 

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