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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

13.11.20

Desafio passa-palavra #8 Amor


imsilva

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Amor é...

Ele levanta-se devagar e com cuidado, avança pelo corredor até à cozinha.

Ela está a mexer na panela que está ao lume com uma colher de pau. O cabelo é ralo e muito branco, as costas estão dobradas, certamente com o peso de uma vida com muitos anos.

Ele com o cabelo tão branco como o dela, e com as pernas que nem sempre obedecem às suas ordens, aproxima-se e põe-lhe carinhosamente a mão na cintura.

Ela volta-se com um carinhoso sorriso e diz-lhe que a sopa está quase pronta.

Dez minutos depois, estão os dois sentados à pequena mesa da cozinha, a degustar a sopa que ela fez com tanto amor e dedicação. A sopa que ela sabe que ele gosta, com a hortaliça que ele prefere.

Mais tarde irão sentar-se no sofá, quase tão velhinho como eles, da sua confortável sala a ver a sua novela da noite. Sentados muito juntinhos com a manta por cima das suas pernas, de mão dada.

Depois irão deitar-se, desejarão boa noite um ao outro, e interiormente cada um desejará adormecer o sono final, assim que o outro o fizer.

 

 

Foi com muito amor pela escrita que participei neste desafio da Mula e da Mel. Chegou ao fim, qualquer dia aparecerá outro.

Obrigada meninas e parabéns.

 

 

12.11.20

As palavras de Alice Vieira


imsilva

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AS ROMÃS DE NOVEMBRO

abriste a porta e disseste que
toda a casa cheirava a alfazema
enquanto largavas sobre a mesa
as romãs de novembro
e olhaste para as paredes da sala como se
por entre as estantes carregadas de livros
rompessem estevas urzes lilazes
abriste depois a porta do armário
procurando para as romãs um
prato do serviço de vista alegre que
querias sempre à tua espera mesmo que
o jantar se esquecesse no forno
alfazema repetiste
a palavra saboreada com o ar
de quem tinha deixado
o passado inteiro no elevador
e finalmente
encontrado o caminho de damasco
(.....)
*

ALICE VIEIRA, in OLHA-ME COMO QUEM CHOVE-Poesia (D. Quixote, 2018)

 

10.11.20

Férias ou confinamento?


imsilva

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Eis a questão!

Estou de férias ou será de confinamento???

Vou convencer-me que é um mix, um parvo mix. Tão parvo como o estúpido bicho que anda a comandar as nossas vidas.

No meio das dúvidas, vou usufruindo da companhia dos netos, que é algo que não consigo fazer em época de trabalho, e tento gozar o facto de não ter que me preocupar com terceiros em ambiente laboral.

Sou eu, o marido, uma filha esporadicamente, e agora 4 dias com os netos, enquanto os pais aproveitam uns dias sozinhos por 1º vez em 7 anos.

Quero relaxar um pouco mais do que no confinamento da primavera, não sei se será possível, porque nem sei se conseguirei voltar ao trabalho no tempo que estamos a prever. Imagino stress para esse lado. 

Mas, neste momento não é altura para pensar nisso. Neste momento é para gozar as refeições em casa, o não ter horários, o ouvir a chuva com uma manta e um livro no colo, talvez dedicar um pouco mais de tempo à escrita.

Sejam férias ou confinamento... dêem-me paz e tranquilidade de espírito, por favor.

 

 

06.11.20

Desafio passa-palavra #7 Água


imsilva

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Chegava sempre à mesma hora

Sentava-se sempre na mesma pedra

Deixava os pés tocarem na água devagarinho, como se não quisesse partir o espelho onde via a sua imagem, mas era impossível.

Assim que tocava com o mais pequeno pedaço de si, a imagem reflectida distorcia-se e esfumava-se.

Era isso que sentia na sua alma, quando queria tocá-la, entendê-la, ajudá-la, esfumava-se por outros espaços, por entre espelhos de água noutro além.

E então chorava. Sentia-se perdida, sem rumo, sem chão.

Tentava ver o caminho, tentava com muita força imaginar um futuro, mas tudo se esbatia na impossibilidade de cura de quem lhe iluminava a vida. 

Naquele dia, desesperada, bateu com força os seus pés na água.

Naquele dia, não queria mesmo ver a sua imagem reflectida em espelho de água algum.

 

Desafio da Mel e da Mula

05.11.20

As palavras dos outros II


imsilva

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“Se pudesse voltar a viver a minha vida,

Da próxima vez gostava de fazer mais erros.

Descontraía. Faria mais disparates.

Levaria menos coisas a sério.

Corria mais riscos. Acreditava mais.

Subia mais montanhas e nadava em mais rios.

Convidava os amigos mesmo que tivesse nódoas na carpete,

Usava a vela em forma de rosa antes de ela se estragar no armário,

Sentava-me na relva com os meus filhos

sem me preocupar com as manchas verdes na roupa.

Tinha rido e chorado menos em frente da televisão

e mais em frente da vida.

Tinha contado mais anedotas e visto o lado cómico das coisas.

Tinha descoberto menos dramas em cada esquina,

e inventado mais aventuras.

Se calhar, tinha mais problemas reais,

Mas menos problemas imaginários.

É que, sabem, sou uma dessas pessoas que vive com sensibilidade

E sanidade hora após hora, dia após dia.

Oh, tive os meus momentos,

e se pudesse fazer tudo de novo, outra vez,

tinha muitos mais.

De facto, não tentaria mais nada.

Apenas momentos, uns após outros,

em vez de viver tantos anos à frente de cada dia.

Fui uma dessas pessoas que nunca foi a lado nenhum sem um termómetro,

Botija de água quente, casaco para a chuva e pára-quedas.

Se pudesse fazer tudo outra vez, viajava mais leve do que viajei.

Se tivesse a minha vida para viver de novo,

começava mais cedo a andar descalça na Primavera,

e ficava sempre assim, mesmo mais tarde, no Outono.

Ia a mais bailes.

Cantava muitas mais canções.

Diria muitos mais «amo-te» e «desculpa».

E apanharia mais papoilas."

 

Da escritora americana Nadine Stair.
Aos 85 anos, escreve este poema.

04.11.20

Amor do coração


imsilva

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Há 7 anos, deitamo-nos as 5 horas da manhã. Sabes porquê? Ficamos no corredor do hospital à espera de ver a tua carinha.

E quando passaste nos braços da tua mãe, deitados ambos numa cama andante, por aquele corredor, uma nova luz surgiu nas nossas vidas.

Foi a continuidade a acontecer

Foi a vida a renovar

Foi o coração a alvoroçar

Para o resto das nossas vidas

Meu menino dos olhos grandes

30.10.20

Desafio passa-palavra #6 Cartas

Memórias


imsilva

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Juntavamo-nos na nossa casa, alguns eram familiares, outros simplesmente amigos.

Grandes noitadas de roda das cartas, dos amendoins, de um copo de cerveja ou de um cálice de Porto.

Era uma miríade de jogos, mas o que dava mais gozo, era a "lerpa".

A minha irmã era a maluca que se mandava de cabeça, o meu primo o inocente que perdia sempre, a minha mãe a que fazia todos recuar quando dizia que ia a jogo, porque ficávamos logo a saber que tinha o às. E os amigos deliravam com todas as características envolvidas. De vez em quando ainda falam daquelas noites.

Ao relembrar essas noitadas sinto uma dorzinha na alma, ao pensar que hoje já não seria assim. Hoje não podemos reunir-nos, tocarmos todos nas mesmas cartas, gargalharmos nas caras uns dos outros.

Em que é que o ser humano vai-se transformar depois de tudo isto passar? Seremos capazes de conviver como fazíamos antes? Estará a morrer a espontaneidade com que se dava um abraço ou um beijo a um amigo?

Medo, muito medo, do mundo em que os meus netos vão crescer.

Medo, muito medo, do mundo em que vamos viver daqui para a frente. 

 

Este texto tem o patrocínio da Mula e da Mel