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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

07.02.20

desafio de escrita dos pássaros #2.2

Ser nada


imsilva

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Sentia-se vazia, triste, ansiosa e sozinha, mas não chorava. Sentia-se à beira de qualquer coisa, mas não sabia explicar que coisa era essa. Sentia-se nada. Como se o mundo não soubesse da sua existência, do seu nome, do que já tinha chorado e rido, do que já tinha caminhado, do que já tinha sonhado. Como se o mundo não soubesse do que ela já tinha visto, os pássaros, as flores, as árvores e os seus frutos, que ela também tinha desfrutado e degustado. O sol quando nascia nos montes por detrás da casa da avó, e quando o sol se punha lá ao longe e se escondia dentro do mar. Das cores que essas ocasiões punham em todo o céu, e como pareciam pintadas por anjos travessos. Ela tinha visto e sentido tudo isso, mas era como se não o tivesse feito.

Era nada, ninguém, um fantasma que se assombrava a si próprio. Mas ela queria ser alguém, queria ser alguma coisa, queria que a vissem, que a amassem, que a quisessem e por isso não chorava.

Diziam-lhe que não era assim, que a amavam, que a queriam e ofereciam-lhe ajuda, ajuda que ela recusava, por ter a convicção de que lhe mentiam, que só queriam levá-la ao homem que diziam que era médico, e que dizia que era maluca, que o seu lugar era lá na casa grande, onde as pessoas dormiam e dormiam, ou gritavam e gritavam, mas não viviam.

Lembrava-se da avó e das suas palavras sobre o tio, aquele tio com quem brincou e a quem a sua avó tratou sempre com o maior dos carinhos, o maior dos cuidados, dizendo sempre que não queria os médicos a dar palpites e opiniões, com os quais ela não concordava - É que isso de médicos, nunca fiando - E foram essas as palavras que nunca esqueceu, porque foi o amor da avó que deu vida ao tio, e fez com que ele tivesse sido uma pessoa feliz.

Mas, ela já não tem a avó, nem o tio. Só tem quem não a quer, quem não a ama. E ela sentia-se nada, porque no nada ela vivia, e por isso não chorava.

31.01.20

desafio de escrita dos pássaros #2.1

Acho que a coisa não vai correr bem.


imsilva

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Ficou a olhar, como se nunca tivesse visto, como se não soubesse o que era ou para quê servia.

Um arrepio na espinha, acompanhado de uma nausea, disse-lhe que se estava a meter em trabalhos, que sózinho não ía ser fácil.

Pensou em pedir ajuda, mas depressa lhe passou a vontade de o fazer. Não conseguia imaginar alguém alí, a fazer aquilo.

Pegou, olhou novamente, mediu, pesou e maldisse a sua sorte. Não fosse a necessidade grande e tinha enfiado tudo dentro da caixa e teria esquecido o assunto.

Mas não podia, sabia que não podia e que tinha que avançar. Coisas maiores e extremamente importantes dependiam da realização com sucesso daquilo que tinha que ser feito.

Recordava todos os passos que dera antes daquele amarfanhado dia. Todos os sítios onde fora, e a mesma opinião vinda de todas as direcções.

Não havia outro remédio, apesar dos pedidos e súplicas que lhe tinham saído da boca, em nenhum ouvido tinham entrado, ou pelo menos, tinham entrado, mas saído à mesma velocidade, porque ninguém tinha feito caso.

Ao fim e ao cabo, ele sabia que tinha que ser, os incómodos já eram mais que muitos e o assunto tinha que ser resolvido.

Aparentemente, cheio de coragem, e já com decisão tomada, pega na bula do aparelhómetro e começa a ler. Caem gotas de suor da sua fronte, só a leitura já lhe estava a afectar os sentidos. Não sabia como ia levar aquilo até ao fim.

Depois de perceber os passos a seguir até ao resultado final, depois de estar a transpirar feito um parvo, realiza todas as operações necessárias e quando tudo fica pronto e a postos, pensa - Acho que a coisa não vai correr bem - Pendura o saco no dispositivo apropriado, deita-se e...

Sinceramente, não creio que seja possível descrever o resto da história, se já sabem o que é um clíster... imaginem o resto.

 

 

10.01.20

desafio de escrita dos pássaros #17

Luz e Sombra


imsilva

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E apareceu a luz

estava claro

havia calor

parecia um sol

encontrei alegria

era aberto

continha amor

 

E veio a sombra

estava escuro

havia frio

parecia a lua

encontrei tristeza

era fechado

continha ódio

 

E o claro e o escuro misturaram-se, numa amalgama de tons, na alma sentiram e ouviram uma sinfonia sem sons.

E a luz e a sombra começaram a dançar, valsaram e enlouquecidos rodopiaram sem parar.

E então pararam e assustados, interrogaram, reclamaram, imploraram, e por fim...choraram.

E entre silêncios e gritos, ambiguidades, sentimentos, dúvidas e certezas, foi criado o coração do bicho, coisa, homem.

03.01.20

desafio de escrita dos pássaros #16

Divagações de gente grande


imsilva

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Quantos anos dizes que tenho? ah, pois é, tenho tenho.

E olhamos para dentro e não vemos tantos anos, mas por fora...já não corremos da mesma maneira, e já tomamos uns quantos comprimidos por dia. Afinal tenho esses anos todos. Reconhecemos o orgulho de os termos, e daquilo em que nos transformamos, e afinal gostamos. Mas continuamos à nora, sem sabermos muito bem o que é ser adulto, e o que há a fazer. No entanto podemos divagar sobre o assunto.

Ser adulto é chato! Temos que ser mais responsáveis, mais atinados, fazer a cama, pensar o que vamos cozinhar, ter um emprego (ou mais) e fazer muitas contas para que o dinheiro chegue para tudo, (todos sabemos que não será bem assim para todos...).

Ser adulto é bom! Podemos mandar, e tomar decisões. Fazer o que achamos melhor, sem ter outras pessoas a dizer-nos se o podemos fazer ou não.

Ser adulto é ter saudades! Ter saudades de sermos crianças e de termos menos responsabilidades. É ter saudades de brinquedos, bonecos, jogos, filmes e livros que adoramos, e que entretanto se perderam no tempo.

Ser adulto é fazer cara séria e respondermos como deve de ser, para não sermos apelidados de malucos.

Ser adulto também é sofrimento. É termos a percepção de que as nossas pessoas desaparecem da nossa vida, e não temos uma palavra a dizer sobre o assunto. 

Ser adulto é um curso continuado de sentimentos que sobem e descem ao sabor da vida, quando ela nos põe à frente sustos, desgostos, e felizmente também coisas muito boas que agarramos com ambas as mãos. 

Mas, no fundo a maioria de nós, não sabe o que é ser adulto. Andamos às apalpadelas, a tentarmos ser aquilo que querem que sejamos, a fingir que sabemos o que estamos a fazer. Mas...nem por isso. Valha-nos a inspirição e o improviso que faz com que nos safemos razoavelmente, mesmo sem saber como. 

 

27.12.19

Reflexão aviária


imsilva

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Sobre "O desafio dos pássaros " já aqui deixei a minha reflexão quando íamos a meio da coisa, fazê-lo agora seria repetir-me . 

Só tenho de acrescentar que sou coagida a inscrever-me no 2° desafio, sob pena de morrer de inveja ou engasgado, quando os textos forem publicados e eu começar a magicar o que escreveria se me tivesse inscrito.

Por isso só posso reiterar a coação a que fui submetida, e que devo de estar tão maluca como os pássaros, para entrar outra vez nesse antro de maluqueira. 

Tenho dito!

E ainda nem acabou o 1°...🥺