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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

06.12.21

O mar de Serafim


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"O mar é o colo dos barcos!
E se há colo é porque há mãe que nos embala na tempestade e na bonança. As mães têm os temperamentos e as temperaturas dos mares. Ora tempestivas, ora tranquilas, ora quentes, ora frias, ora serenas, ora preocupadas, mas sempre maternais. Sim, o mar é uma palavra masculina, mas...É a mãe de todas as embarcações! E de todos os peixes! E de todos os pescadores! E de muitas travessias!
Se calhar, as mães são os cais aonde sempre regressamos."

Jorge Serafim. In: Amar à vista . Ilustração Jorge Serafim.

17.11.21

Sucata de Alice Vieira


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Sucata

o que levam das nossas vidas
as coisas velhas que deitamos fora porque
as casas são pequenas e os objectos
envelhecem agora mais depressa
do que nós

nas velhas casas
os lençóis de linho e as arcas de cânfora
e os serviços de chá onde se via
uma chinesa no fundo das chávenas
que um tio avô
tinha trazido de Cantão
sobreviviam sempre a todos os mortos
e passavam de cama para cama
e de sala para sala
e de mesa para mesa
e eram sempre os mesmos
e nós tão outros

mas agora tudo é feito
para morrer depressa e
sem deixar mágoa nem vestígio

e que fazem dentro das nossas vidas
gravadores de fita máquinas de escrever
cassettes onde aprisionámos
histórias momentos e rostos
que julgávamos eternos
e que pensávamos rever
a vida inteira

--o senhor da sucata estava feliz
agradeceu muitas vezes
enquanto amontoava tudo
deixando a minha casa
subitamente maior

(ou muito mais pequena
conforme o ponto de vista)"

Alice Vieira, Olha-me Como Quem Chove.

22.10.21

Mais de Fernando Pessoa


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Loura e face que esfria
Cose, dobrada, à janela.
Se eu fosse outro pararia
E falaria com ela.

Mas seja o tempo ou o acaso
Seja a sorte interior,
Olho mas não faço caso
Ou não faz caso o amor.

Mas não me sai da memória
A janela e ela, e eu
Que se fora outro na história
Mas o outro nunca nasceu...

 

Fernando Pessoa

In Poesia 1931-1935 

Imagem: Momentary Glance by Morgan Weistling

17.09.21

Tardes de Setembro - Eugénio de Andrade


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Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
Meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade 
In "As Mãos e os Frutos"

10.09.21

Múrmurios


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Os múrmurios são tantos, surgindo de poços sem fundo

As vozes incomodas e sujas como as almas suspensas

O calor alaga os poros e os pensamentos derretem em líquido viscoso

Os movimentos são autónomos e incompreensíveis

O chão que pisamos vai e vem e por vezes desaparece, assustando-nos

O que somos? o que parecemos? o que será que queremos ser?

E é quando os múrmurios gritam e se exaltam

que realmente começamos a ouvir

Nós não somos, nós não parecemos

nós só queríamos ser...

08.09.21

O meu pai - Vinicius


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Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra
Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas
Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência
E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste.

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas
Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias
Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.

Vinicius de Moraes. Meu Pai
Pintura, VAN GOGH

01.09.21

O menino (Fernado Pessoa)


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O meu menino não dorme.
Não sei como dormirá.
Lá fora a noite é enorme
E não há lua, não há…

Meu menino chora, chora,
Não tem sossego consigo
Voltei-o p’ra mim agora,
Mas não dorme, não consigo…

Já cantei quanto se canta…
Já lhe falei do papão…
Já lhe disse como encanta
A fada que tem condão…

Mas ele não dorme; vejo
Sempre os seus olhos abertos…
Dou-lhe um beijo e outro beijo
E estende os braços despertos…

Dorme, meu menino, dorme
Que a mãezinha vai dormir!
Lá fora a noite é enorme…
Dorme, meu menino, dorme
Que já te vejo a sorrir

 

Fernando Pessoa

In Poesia 1931-1935  , Assírio & Alvim

Imagem: Arthur John Elsley

18.08.21

A noite de Rosa Lobato de Faria


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ROSA LOBATO DE FARIA, in A NOITE INTEIRA JÁ NÃO CHEGA - Poesia - 1983-2010 (Guimarães Editora, 2012)

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.

*
Fotografia ©Elsa Estrela
*

(LT)

13.08.21

As meninas de Cecília


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As Meninas.


Arabela
abria a janela.
Carolina
erguia a cortina.
E Maria
olhava e sorria:
"Bom dia!"
Arabela
foi sempre a mais bela.
Carolina
a mais sábia menina.
E Maria
Apenas sorria:
"Bom dia!"
Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.
Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"

(Cecília Meireles---)