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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

18.08.21

A noite de Rosa Lobato de Faria


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ROSA LOBATO DE FARIA, in A NOITE INTEIRA JÁ NÃO CHEGA - Poesia - 1983-2010 (Guimarães Editora, 2012)

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.

*
Fotografia ©Elsa Estrela
*

(LT)

13.08.21

As meninas de Cecília


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As Meninas.


Arabela
abria a janela.
Carolina
erguia a cortina.
E Maria
olhava e sorria:
"Bom dia!"
Arabela
foi sempre a mais bela.
Carolina
a mais sábia menina.
E Maria
Apenas sorria:
"Bom dia!"
Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.
Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"

(Cecília Meireles---)

28.07.21

Diz-me avô...


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Nino Chakvetadze

 

DIZ O AVÔ

Tens cabelos brancos.
Mas porquê, avô?
Caiu muita neve
na estrada onde vou.

Tens rugas na face.
Mas porquê, avô?
Bateu muito sol
na estrada onde vou.

Tens olhos baços.
Mas porquê, avô?
Pousou nevoeiro
na estrada onde vou.

Tens calos nas mãos.
Mas porquê, avô?
Parti muita pedra
na estrada onde vou.

Tens coração grande.
Mas porquê, avô?
Nele mora a gente
que por mim passou.


LUÍSA DUCLA SOARES, in A CAVALO NO TEMPO 

 

 

30.03.21

As poesia de Maria do Rosário Pedreira


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Óleo s/ tela, por © Erica Hopper

 

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES (Gótica Ed., 2001), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

 

Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite — 

e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e 

um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas 

que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos, 

e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras, 

nem das aves negras nos meus braços de mármore, 

nem de te ter perdido — não ter medo de nada. Pudesse 

 

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo — 

das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite; 

de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo 

deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida 

e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo

já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era 

tarde para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse 

 

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor, 

a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi — 

porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre 

o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam 

nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse 

 

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha 

dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer, 

mas ouço-te a respirar no meu poema. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

19.02.21

Poesia no feminino


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Esta é a 4° edição de "Dois dedos de poesia", e asseguro que as 3 anteriores foram muito boas.

Se não tiverem nada para fazer que seja importante, agarrem-se a este espectáculo que engloba poesia, canções e muito boa gente a fazer um bom trabalho.

As outras edições foram dedicadas ao Mar, às cartas enviadas por Mário de Sá Carneiro a Fernando Pessoa, e a 1° foi Breve história da poesia portuguesa.

Sei que tiveram pouco tempo de ensaios para esta edição, mas acredito que se vão sair lindamente como sempre fazem.

Se assistirem a este espectáculo, não se esqueçam de me dar a vossa opinião sobre o mesmo. É muito fácil, basta no face, ir à  Câmara Municipal de Mafra.

Eu vou lá estar. 😎

 

11.02.21

A poesia de Rosa Lobato Faria


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As pequenas palavras

De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.

Rosa Lobato Faria

29.01.21

Recomeça - Miguel Torga


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RECOMEÇA ❤️

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És Homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

-- MIGUEL TORGA [Sísifo]

31.07.20

O meu sítio


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Onde é que eu estou?

Para onde eu vou?

Estarei eu aquí?

Abro os meus braços, mas não consigo tocar em algo

Vejo tanto, mas não vejo nada

É um espaço tão grande, que não encontro o fim

Queria sentir-me aquí, sabendo onde

Conhecendo o límite, para saber até onde posso ir

Encontrar o sítio, e saber que é o meu

23.03.20

Ainda a poesia


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Isto é do nosso vizinho sapiano Folhas de Luar. Abri o livro ao acaso e é isto...

Creio que se integra no sentimento geral, no meu pelo menos. Depois de uma semana péssima, tive um fim de semana em que pensei que estava a adaptar-me à situação (se é que é possível). Mas não, creio que foi a passagem da preocupação para a ansiedade instalada. Vou ter que lidar coma situação o melhor que puder. Vai tudo ficar bem. 🌈