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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

11.07.22

Os amantes


imsilva

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MARIA JOÃO CANTINHO, in SÍLABAS DE ÁGUA (Ed. Ver o Verso, 2005)

OS AMANTES

Poderiam ter deixado tudo para trás de si
e tomar o último comboio da noite,
como anjos de Chagall,
que não conhecem senão a dança do amor.

Teriam, então, deslizado pelas sombras,
como figuras luminosas,
que se desenhavam no hálito da madrugada,
os corpos fundidos nos versos
que escreviam no coração um do outro.

Teriam sido felizes, deitados sobre a terra,
a olhar o céu, onde deslizavam animais feitos de algodão,
teriam esquecido os nomes um do outro,
para reaprender o apelo da água
e do sangue, o apelo da voz universal,
o canto derradeiro que os sonhava.

Era preciso ter esquecido tudo
O lugar onde se nasce,
a casa onde sempre se retorna,
era preciso ter esquecido tudo,
para reaprender esse enigma,
que se escrevia na flor do silêncio.

Poderiam ter esquecido tudo, para trás de si
e tomado o último comboio do tempo.


Óleo s/ tela : Deux Têtes À La Fenêtre, de Marc Chagall

 

08.07.22

Sentimentos na escrita

52 semanas de 2022 / tema 27


imsilva

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Quando escrevo sinto que estou a ter uma conversa comigo, sinto-me livre de expressar as minhas opiniões e sentimentos sem interrupções. Não há mais ninguém a dar palpites e a dizer de sua justiça, o que adoro.

É o meu momento, é o encontro entre o eu e o mim, entre as palavras e os pensamentos, entre a minha lógica, as minhas fantasias e a minha liberdade.

É o meu momento zen, em que uma página em branco a ser preenchida  a pouco e pouco por caracteres que expressam a minha mente, me liberta e relaxa, e até a ansiedade de perceber se o que escrevo faz sentido, faz parte do prazer que é escrever, simplesmente...escrever.

 

Os desafios da abelha

 

06.05.22

Teimosamente


imsilva

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Lágrimas teimosas rolam,

escorrem pelos cantos que a alma deixa a descoberto

e livres, vão passeando por aqui, por ali e por acolá

envolvendo um coração dorido

deixando um rasto, também teimoso, de tristezas e ânsias

Não encontram caminho a direito

por isso vão ziguezagueando e teimosamente demorando

Se encontrassem o caminho certo

talvez já tivessem levado as dores e as lástimas

talvez já tivessem desertado para algum outro sítio

libertando assim as teimosas angustias do meu coração

por onde a tua imagem passeia

18.03.22

Destroços e emoções


imsilva

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Vladislav lembrava-se daquele teatro numa ocasião em que, era ele de palmo e meio, fora com o avô ver uma peça "Pedro e o lobo" de Prokofiev. Talvez fosse daí que tivesse nascido a sua paixão pela música.

Hoje era um jovem pianista que começava a ser conhecido na cidade de Kiev, e falado em toda a Ucrânia. Mas, não tinha tido oportunidade de tocar lá, e agora já não o poderia fazer.

Agora só tinha as memórias das belas melodias lá ouvidas ao lado de um avô que também já não estava.

Os seus olhos percorreram as paredes que restavam e sentiu um aperto no peito. Destroem-se casas de cultura como se de um baralho de cartas se tratasse, e não são essas só, são as outras também, as casas que fazem parte da vida do povo, da vida das aldeias, cidades, as casas onde se ensina, as casas onde se tratam os doentes, as casas onde se procura o conforto da fé, as casas de uma sociedade completa.

Haverá alguma desculpa, alguma razão, algum motivo que justifique a destruição dos meios de sobrevivência do ser humano, e do próprio do ser humano que não fez nada para isso merecer?

Vladislav afastou-se acabrunhado, com os olhos postos no chão, envergonhado, não queria ver mais atrocidades cometidas por aqueles que ele pensava serem seus semelhantes.

19.01.22

Os nossos contos de Natal 2021 - Finalistas


imsilva

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Quando comecei a pedir contos de Natal, foi mesmo pelo prazer que tenho em os ler. Não imaginei o que acabaria por acontecer, e que logicamente me deixou muito feliz.
Cada vez que encontro mais um, vou logo lê-lo, cheia de curiosidade e continuo a adorar cada um deles. É muito interessante ver a imaginação de tantos neste tema.

E pronto,aqui estão os contos deste ano, maravilhosos e quentinhos, como o coração gosta. Creio que já temos todos os que quiseram escrever este ano. Se alguém está a atrasado na demanda e ainda tem algum na manga que queira expor, faça favor, teremos todo o gosto em inclui-lo. Com o número de contos que temos este ano, gostaríamos de editar um outro volume de "Contos de Natal". Posto isto, e como aconteceu anteriormente, agora vamos às burocracias, se não se importam, respondam a este questionário de preferência para o e-mail, contosdenatal@sapo.pt, a gerência agradece.

1º Pergunta  -  Autorizas a publicação do(s) teu(s) conto(s)?

2º Pergunta  -  Qual o autor que queres que seja colocado no livro, referente ao(s) teu(s) texto(s)?

3º Pergunta  -  Qual o blogue ou blogues que queres ver referenciados?

4º Pergunta  -  Quantos exemplares desejas reservar do livro?

5º Pergunta  -  Autorizas que se altere(m) o(s) teu(s) texto(s) para a grafia antiga se for caso disso?

E agora sim, deixo-vos com as maravilhosas criações deste cantinho à beira net plantado, o que me enche de orgulho.

Carta a um qualquer pai Natal - José da Xã

A herança - José da Xã

O espírito de Natal - José da Xã

Um qualquer dia  na aldeia  -  Zé Onofre

Conto de Natal - Ana de Deus

Mataram o pai Natal I - José da Xã

Mataram o pai Natal II - José da Xã

Natal de um bombeiro - Ana Mestre

Houve um tempo em que não havia Natal - Folhas de luar

O espírito de Natal - Folhas de luar

Benjamim - Ana D

Natal é amor - Ana D.

Conto de Natal 2021 - Maria Araújo

O Natal é da família - Nala

Um conto com magia - Isabel Silva

Ainda há espírito natalício - Isabel Silva

O Natal das nossas memórias - Isabel Silva

Natal em tempo de pandemia - Charneca em flor

Nunca mais será Natal - Zé Onofre

A fogueira - bii yue

Conto de Natal - Maribel Maia

A receita mais original de um doce de Natal - Olga C. Pinto

As bolachinhas - Olga C. Pinto

Os três caminhantes - Olga C. Pinto

Já nasceu - Alice Alfazema

Aqueles Natais foram diferentes - Vagueando

O melhor presente - MJP

Um louco e o Natal - Zé Onofre

O dia começou branco - Maria Neves

O papel de lustro sem pinheiro - Maria Neves

O guarda- rios azul - Maria Neves

Um trenó com histórias - historiasabeirario

O Natal do António - José da Xã

Resposta ao pai Natal - José da Xã

Laura - José da Xã

O reencontro - Alice Barcellos

E foi Natal - Cristina Aveiro

Avó, o pai Natal já se foi embora? - Cristina Aveiro

Ta-tin-ta - João Silva

Choro - Isa Nascimento

O presente escondido - Isa Nascimento

O primeiro Natal - Isa Nascimento

Nasceu no dia de Reis - Isa Nascimento

Conto de Natal - Marta Velha

filhoses e sonhos de abóbora - Di

Escrevi ao pai Natal - Mónica Silva

 

 

 

 

 

29.12.21

O Natal das nossas memórias


imsilva

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O Natal das nossas memórias

 

Fernanda aconchegou o casaco ao corpo, naquele Dezembro frio mas luminoso que ainda não prometia a neve que nunca mais vira, e continuou a andar, receosa do que iria encontrar uns passos mais à frente. Chegou à Rua de Baixo, o sítio onde não ia há mais de 40 anos. A aldeia de onde saíra com 10 anos de idade, para ir para o Brasil com os pais. O sítio onde ficara o seu coração na companhia dos avós que lhe tinham dado tanto amor e atenção, tantas memórias guardadas com tanto cuidado, sempre com medo que se desvanecessem.

Começou a descer a rua, notando o abandono que marcava aquelas casas que em tempos tinham estado preenchidas com vida, com risos, lágrimas e labutas. E quando finalmente lá chegou, o coração bateu mais forte, as lágrimas soltaram-se e deslizaram pelo seu rosto. Era uma ruína, umas pedras que tinham sido ocupadas por hera e plantas solitárias, e que lembravam imagens de outros tempos felizes e tão importantes na sua vida.Os avós tinham morrido cedo, cada um com a sua maleita, e a casa nunca mais tinha sido habitada. 

A saudade trouxe-lhe as memórias do último Natal que lá passara, antes daquela viajem que a levaria para tão longe. Via a mesa posta com a toalha que religiosamente saia todos os Natais, branca com azevinho bordado, sempre impecável de tão bem tratada que era. Os pratos e os copos do serviço das ocasiões especiais, e todos os acepipes e guloseimas que só a avó sabia fazer. Uma família alargada de tios e primos barulhentos, vindos de todos os cantos do pais, que enchiam a casa de alegria e confusão, e que sem isso não seria a mesma coisa.

Mas isso era o passado, o presente era isto, uma ruína, umas pedras que caladas, gritam nos silêncios de histórias sussurradas nos espaços das pedras que ficaram. Soluços ecoam nos vazios das almas, das presenças que já não estão.

Fernanda senta-se naquele muro que já foi parede, chora de saudade, e depois levanta-se, ergue a cabeça e faz o caminho de volta sentindo-se mais tranquila. Ainda bem que existem memórias...

 

 

17.12.21

Ainda há espírito natalício (Conto de Natal)


imsilva

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Sentada no sofá, com uma manta a tapar-lhe as pernas apesar da lareira acessa, e do conforto que dela emanava, Amélia pensava na época que se avizinhava.

Estava novamente em Dezembro, o Natal já batia à porta, mas faltava a motivação, o sentimento que deveria estar a acontecer nessa altura.

Amélia recordava outras épocas, outros natais, outros anos em que a vontade de ouvir e cantar as músicas natalícias e de enfeitar todos os cantinhos da casa existia. Outros anos em que à volta da mesa se reuniam comensais sorridentes, perante as iguarias e os doces que estragavam as dietas de um ano.

Amélia perguntava-se o porquê da mudança de espírito, seria por já não estarem todos os que costumavam estar? Claro que isso já era um motivo de peso, mas, mais não era que os ciclos da vida a passarem por nós, consequência da nossa mortalidade. Ou seria a humanidade, que se estava a tornar fria, dando valor ao que o não tinha, esquecendo emoções e valores maiores, perdidos nas esquinas das distracções imediatas e traiçoeiras?

Sem saber muito bem como contrariar a falta de espírito natalício, Amélia vai pôr ao lume a chaleira para fazer um chá quando ouve a campainha da porta. Curiosa, dirige-se à entrada, e ao abri-la depara-se com as crianças mais lindas do mundo, os seus netos, cada um com uma caixa quase do seu tamanho. Atrás vem a filha e o genro, que com um grande sorriso lhe dizem, podemos vir ajudar a preparar a casa para as festas?

O filho de Amélia estava no Austrália a cumprir um contrato de 2 anos, e a filha supostamente, iria passar o Natal ao Minho a casa dos cunhados, mas acabou por decidir com a concordância do marido, que não poderia deixar a mãe e a tia que se lhe juntaria, sozinhas. Em casa dos cunhados seriam muitos, não sentiriam a sua falta, e os filhos foram da mesma opinião, a avó precisa mais da nossa companhia, disseram eles. 

Logo a seguir telefona-lhe a irmã a informar que a filha também passará a consoada com elas. Pensara que estaria de serviço no hospital nessa noite, mas tinham trocado os turnos, e ela estaria livre, podiam contar com ela e com o filho.

Afinal, o espírito natalício existia! E o amor, e a solidariedade, e o carinho, e a palavra família. 

E com um ímpeto novo, começou a preparar a sua casa para as festas com a fantástica ajuda daqueles belos ajudantes.  

 

   

10.12.21

Um conto com magia


imsilva

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Da minha colecção

 

Mariana olhava a sua árvore de Natal muito pensativa.

Nesse dia, na escolinha, houve um colega que do alto dos seus 7 anos, declarou que o Pai Natal não existia. Mariana ficou confusa, pois tinha entregado a sua carta no marco do correio do Pai Natal, e ainda no dia anterior tinha recebido uma simpática carta do senhor das barbas brancas, em que até sabia qual o dia de anos dela.

Quando chegara a casa, por fim, pôs as suas dúvidas à mãe, contando-lhe o que o amigo dissera. A mãe sabia que mais tarde ou mais cedo teria lugar uma conversa sobre o assunto, e preparou-se para ela.

Disse à filha que o Pai Natal existiria sempre no coração dos que acreditassem. Poderia não ser fisicamente, mas emocionalmente não teria mal algum acreditar numa figura bondosa, que gostava de ver os meninos felizes, e que preenchia o seu imaginário. A magia do natal assim o permitia.

Mariana pensou muito no assunto e decidiu que queria continuar a acreditar no Pai Natal, sentiu-se aconchegada com essa decisão, comunicou-a à mãe, e foi para o seu quarto com um livro de contos de natal.

A mãe sentiu-se orgulhosa da sensatez da sua menina. Passado algum tempo e no intuito de a chamar para o jantar, foi até ao quarto da filha e entreabriu a porta curiosa com o som de uma voz que não parecia reconhecer. Foi quando estupefacta, viu uma imagem inusitada. O Pai Natal, sentado na cama da Mariana, contava-lhe uma história.

 

Conto no âmbito do desafio Os nossos contos de Natal

06.12.21

O mar de Serafim


imsilva

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"O mar é o colo dos barcos!
E se há colo é porque há mãe que nos embala na tempestade e na bonança. As mães têm os temperamentos e as temperaturas dos mares. Ora tempestivas, ora tranquilas, ora quentes, ora frias, ora serenas, ora preocupadas, mas sempre maternais. Sim, o mar é uma palavra masculina, mas...É a mãe de todas as embarcações! E de todos os peixes! E de todos os pescadores! E de muitas travessias!
Se calhar, as mães são os cais aonde sempre regressamos."

Jorge Serafim. In: Amar à vista . Ilustração Jorge Serafim.

03.12.21

Vejam quem chegou!!!


imsilva

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Quando em Dezembro de 2019, e novamente em 2020, vos desafiei para a escrita de um conto de Natal, nunca imaginei onde os contos iriam parar, a um maravilhoso livro onde se juntaram, e assim, criaram esta bela obra natalícia.

É com imenso orgulho que mostro este trabalho, feito com muito amor e carinho, e principalmente pelo empenho do José da Xã, que além de me ter desafiado com a ideia, tratou de tudo o referente aos contactos com a editora e afins, onde ele estoicamente enfrentou todos os obstáculos inerentes a um trabalho deste gabarito.

Entretanto para esta magnífica capa, tivemos a valiosa colaboração da Olga Cardoso Pinto que não sendo de estranhar, fez as belas ilustrações que podem apreciar.

Está descoberto o mistério, a surpresa que há 3 dias viajava por este bairro de sapos, agora mais rico com a publicação deste livro.

Agradeço a todos os que escreveram, e espero que agora incentivados com esta obra, continuem a fazê-lo com a mesma criatividade e carinho com que já o faziam. E agradeço também ao Pedro Neves que amavelmente aceitou fazer o prefácio. Àqueles que ainda não se estrearam, têm aqui um belo exemplo para o fazerem, serão muito bem vindos, e nunca se sabe o que o futuro nos guarda. Podem ver aqui o novo desafio.

Os que não têm um conto escrito neste volume, e quiser um exemplar, é só dizer por email, e falaremos do assunto.

Este post foi escrito com emoção, com orgulho, com muitos agradecimentos, e espantada cada vez que olho para este "filho" recém-nascido. Não é lindo?