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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

22.07.22

Lar de Rosa Lobato Faria


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ROSA LOBATO FARIA, in O SÉTIMO VÉU (2003; Ed. ASA, 2017)

Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.



 

11.07.22

Os amantes


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MARIA JOÃO CANTINHO, in SÍLABAS DE ÁGUA (Ed. Ver o Verso, 2005)

OS AMANTES

Poderiam ter deixado tudo para trás de si
e tomar o último comboio da noite,
como anjos de Chagall,
que não conhecem senão a dança do amor.

Teriam, então, deslizado pelas sombras,
como figuras luminosas,
que se desenhavam no hálito da madrugada,
os corpos fundidos nos versos
que escreviam no coração um do outro.

Teriam sido felizes, deitados sobre a terra,
a olhar o céu, onde deslizavam animais feitos de algodão,
teriam esquecido os nomes um do outro,
para reaprender o apelo da água
e do sangue, o apelo da voz universal,
o canto derradeiro que os sonhava.

Era preciso ter esquecido tudo
O lugar onde se nasce,
a casa onde sempre se retorna,
era preciso ter esquecido tudo,
para reaprender esse enigma,
que se escrevia na flor do silêncio.

Poderiam ter esquecido tudo, para trás de si
e tomado o último comboio do tempo.


Óleo s/ tela : Deux Têtes À La Fenêtre, de Marc Chagall

 

06.05.22

Teimosamente


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Lágrimas teimosas rolam,

escorrem pelos cantos que a alma deixa a descoberto

e livres, vão passeando por aqui, por ali e por acolá

envolvendo um coração dorido

deixando um rasto, também teimoso, de tristezas e ânsias

Não encontram caminho a direito

por isso vão ziguezagueando e teimosamente demorando

Se encontrassem o caminho certo

talvez já tivessem levado as dores e as lástimas

talvez já tivessem desertado para algum outro sítio

libertando assim as teimosas angustias do meu coração

por onde a tua imagem passeia

29.03.22

O Amor de Gedeão


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POEMA DO AMOR

Este é o poema do amor.
.
Do amor tal qual se fala, do amor sem mestre.
Do amor.
Do amor.
Do amor.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das fachadas dos prédios e dos recipientes do lixo.
Do amor das galinhas, dos gatos e dos cães, e de toda a espécie de bicho.
Do amor.
Do amor.
Do amor.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das soleiras das portas
e das varandas que estão por cima dos números das portas,
com begónias e avencas plantadas em tachos e em terrinas.
Do amor das janelas sem cortinas
ou de cortinas sujas e tortas.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das pedras brancas do passeio
com pedrinhas pretas a enfeitá-lo para os olhos se entreterem,
e as ervas teimosas a descerem de permeio
e os homens de cócoras a raparem-nas e elas por outro lado a crescerem.
Do amor das cadeiras cá fora em redor das mesas
com as chávenas de café em cima e o toldo de riscas encarnadas.
Do amor das lojas abertas, com muitos fregueses e freguesas
a entrarem e a saírem e as pessoas todas muito malcriadas.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor do sol e do luar,
do frio e do calor,
das árvores e do mar,
da brisa e da tormenta,
da chuva violenta,
da luz e da cor.
Do amor do ar que circula
e varre os caminhos
e faz remoinhos
e bate no rosto e fere e estimula.
Do amor de ser distraído e pisar as pessoas graves,
do amor sem amar nem lei nem compromisso,
do amor de olhar de lado como fazem as aves,
do amor de ir, e voltar, e tornar a ir, e ninguém ter nada com isso.
Do amor de tudo quanto é livre, de tudo quanto mexe e esbraceja,
que salta, que voa, que vibra e lateja.
Das fitas ao vento,
dos barcos pintados,
das frutas, dos cromos, das caixas de tinta, dos supermercados.
.
Este é o poema do amor.
.
O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.

Este é o poema do amor.

ANTÓNIO GEDEÃO, in OBRA COMPLETA (Relógio D'Água, 2004)

14.02.22

5 coisas de Neruda


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Quero apenas cinco coisas...

Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos..
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda
Adaptação do poema "Peço Silêncio"
Il. Almada Negreiros

14.01.22

Sussurros da Mãe Natureza


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Alguém chama através do nevoeiro

Soam trompetes nos pingos de chuva

Harpas tocam nos raios de sol

Pegadas na neve surgem, assim como na areia à beira do mar

Cheiramos o rosmaninho ou a madeira da lareira a arder

Sentimos a aragem ora fresca, ora morna

Mas sempre surpreendente

Como a água que desce da nascente

Sussurros, coisas, ofertas da Mãe natureza

28.12.21

O velho , de Eugénio de Andrade


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O inverno

Velho, velho, velho.
Chegou o inverno.

Vem de sobretudo
vem de cachecol
o chão onde passa
parece um lençol.

Esqueceu as luvas
perto do fogão
quando as procurou
roubara-as um cão.

Com medo do frio,
encosta-se a nós:
dai-lhe café quente
senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o inverno.

Eugenio de Andrade. Aquela nuvem e outras.