A vizinhança
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Novembro 07, 2025
imsilva

A D. Clotilde estava a par de tudo, tudinho, o que acontecia pela Rua da Esperança. Conhecia de ginjeira toda a vizinhança e todos os cadilhos que por lá aconteciam.
O Sr. Aurélio corria com quem se aproximasse da sua casa, fossem carteiros, testemunhas de Jeová, vendedores da banha da cobra ou os que tanto insistiam na mudança da empresa da electricidade, nem que isso fizesse com que não pagasse, ou até os que recorrentemente batiam à porta para que assinasse a televisão por cabo de que todos falavam, menos ele, que não queria mais do que a televisão que tinha. A D. Clotilde de tudo isso sabia.
A D. Margarida depois de ficar viúva, queixava-se da solidão, dos achaques na saúde, da falta dos filhos que nunca teve, e ia tratando de todos os gatos que lhe apareciam à porta. A D. Clotilde de tudo isso sabia.
O casal ao lado, com 4 filhos ainda pequenos, andavam sempre carregados de compras, o que é perfeitamente válido com tantas bocas a alimentar, e a tentar que os petizes não gritassem tanto enquanto olhavam à volta para ver se os vizinhos estavam à vista a fazer cara de quem não gosta. A D. Clotilde de tudo isso sabia.
Ainda havia o casal da ponta que de vez em quando se ouvia na rua inteira. Já não sabia quem gritava mais, se ele, se ela, era uma competição desenfreada. Os vizinhos, com muita diplomacia, já tinham tentado chamar a atenção para o desassossego que isso provocava, uma vez que ninguém tem nada que saber dos problemas que cada um tem em casa. No dia em que se percebesse alguma coisa mais pesada, teriam que intervir mesmo.
A D. Clotilde de tudo isso sabia, e assim seguia com a sua vidinha, que não era mais que vigiar esta pequena rua. Era a sua novela da manhã, da tarde, e por vezes do inicio da noite. Quando ia para a cama, imaginava aqueles lares e o seguimento das aventuras que de dia dava conta. A D. Clotilde vivera anos a tomar conta dos pais, primeiro do pai quando teve o AVC, e mais tarde da mãe quando o amigo Alzheimer foi entrando sorrateiramente nas suas vidas. Logicamente a D. Clotide não soube o que era ter vida própria, e agora já era tarde para rectificar as falhas que isso provocou no seu "eu". Antes de adormecer, pensava se no dia seguinte iria haver alguma novidade na Rua da Esperança e desejava que o dia depressa chegasse.