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pessoas e coisas da vida

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11.10.19

desafio de escrita dos pássaros #5

O homenzinho


imsilva

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Ia à minha frente, de gabardina e chapéu na mão, era baixo, ou parecia, tinha o cabelo delambido, com risco ao lado, e colado à cabeça. Uma coisa farfalhuda acontecia por cima do seu quase inexistente lábio superior. A cara era de poucos amigos, pudera, não poderia ser de outra maneira, com a quantidade de inimigos que tinha.

Chegamos, olhamos à nossa volta, e mesmo à nossa frente erguia-se uma enorme porta cor de ferrugem, imponente, com umas ferragens enormes e um batente que metia respeito. Por cima via-se a palavra Purgatório. E oiço o homem sussurrar, com as lágrimas a virem-lhe aos olhos "o que isto me faz lembrar a bela frase que brilhava por cima da entrada do grandioso campo de Auschwitz, O trabalho liberta " e em seguida levanta o braço como se fosse fazer a saudação nazi, assustei-me, mas afinal era só para bater à porta, ou melhor, para tocar à porta, porque estava lá uma campainha.

Imediatamente a dita cuja abriu-se, e um ser nem branco nem preto, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, no fundo, nem homem nem mulher, olhou para ele e franzindo o cenho, perguntou-lhe, "Como te chamas? Eu não te conheço de qualquer lado?" ao que o homem respondeu "Chamo-me Adolfo e estranho seria se não me conhecesse, fui uma figura muito importante na terra, destruí e mandei destruir muita gentalha que andava por lá a conspurcar a atmosfera,  eu bem tentei limpar a raça humana, mas fui um incompreendido, e interromperam o meu belo trabalho. Estava a correr tão bem, os comboios sempre a abarrotar a caminho dos campos de concentração, que tão bem organizados estavam, era um regalo apreciá-los, com as câmaras de gás sempre a funcionar noite e dia, e para quê? para aparecerem uns desmancha prazeres e darem cabo de tudo, não sabem apreciar o esforço de um homem que só queria o bem da raça humana, que esta fosse perfeita, sem mácula, sem defeitos, gentinha de mente pequena..." e aí eu tive que me meter, dirigi-me ao nosso anfitrião e tentei que ele me desse ouvidos, " ouça lá, desculpe sei que ainda não é a minha vez, mas não acha que aqui o Adolfo, já disse mais do que suficiente, para saber o que vai fazer com ele, já lhe deu provas e motivos, a sério que precisam de mais alguma coisa? é que eu estou aflita para ir à casa de banho, e assim não estou a ver que chegue lá. Acho que o currículo deste individuo, já disse o bastante para tomarem uma decisão"  

Finalmente lá deixaram o homem entrar, e eu pude ir à casa de banho. Nunca mais vi o homenzinho, nunca mais lhe pus a vista em cima, o que espero seja sinal de que o mandaram para o sítio certo. 

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