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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

Os óculos

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Abril 19, 2024

imsilva

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Esqueceram os óculos...

Do que mais se terão esquecido? Espero que não tenha sido da dignidade ou da humildade, ou do respeito, que tanta falta faz neste planeta, e que parece ter caído em desuso.

Juro que encontrei esta árvore assim, já com os óculos postos. Não deixa de ser caricato, uma árvore visivelmente com muitos anos terá com certeza a vista cansada, e com o sol a bater nela durante séculos, o esquecimento talvez tenha sido, afinal, uma benesse, um acto de bondade e de altruísmo acidental.

O divórcio

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Abril 12, 2024

imsilva

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Hoje li algures que a morte dos avós é o divórcio da família.

E se pensarmos bem, é o que acontece em muitas. Os avós são o elo de ligação, o pilar que une pessoas diferentes com maneiras de pensar dispares, e que tentam tapar essas diferenças por amor aos patriarcas. Na minha família, também existem pessoas diferentes, e não sei como será o futuro quando já não tivermos o pilar que ficou a segurar-nos. 

A partir do momento em que a nossa própria família cresce, quando aparecem os netos e passamos a ser mais que muitos, deixamos de sentir falta dos que nos acompanhavam na infância. Ou então é o meu egoísmo que assim fala, o meu individualismo que se sobrepõe a confusões e obrigações para as quais me falta a paciência.

Não podem pedir mais sinceridade e honestidade do que esta. Fico a pensar se deveria ter escrito isto...

Esta fotografia tem patriarca, filhos, netos e bisnetos. Foi a comemoração dos 87 anos da matriarca que já não estava entre nós. Foi com muito amor e carinho que nos reunimos nesse dia, mas será assim no depois de...? 

Uma brisa

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Março 15, 2024

imsilva

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Uma brisa

Quando uma brisa morna passa por mim, fecho os olhos e beijo-a.

Agradeço o seu suave toque e a tranquilidade que me inunda o ser.

Os aromas inebriantes, que me traz como bagagem, a flores, a fresco e a terra, limpam-me a alma e fazem-me acreditar.

Abro os olhos e vejo fios do meu cabelo branco a esvoaçar na minha frente, numa dança sem coreografia certa, mas perfeita e suave.

Deixo-me embalar por uma melodia inexistente, e pelos raios de sol que a acompanham, completando a perfeição do bailado.

Uma brisa só, é suficiente para uns momentos de felicidade.

 

Camelos... What'else?

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Março 08, 2024

imsilva

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Não quero chamar nomes a ninguém, mas estes simpáticos bichinhos fazem-me lembrar outros bichinhos que têm andado por aí a passear, a dar beijinhos a toda a gente, a levar apertões que valha -me Deus, e quando ao fim do dia chegam a casa, é isto...

Mas, se repararem bem, se pegarem numa lupa, vão ver lá ao fundo uma camela em pé, sempre a postos como é apanágio das mulheres. (Senti-me mal por não ter feito um post todo bonito sobre a importância das mulheres (como é obrigatório neste dia), vai daí, creio que matei dois coelhos de uma cajadada só.) 

Numa rua estreita

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Fevereiro 23, 2024

imsilva

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Numa rua estreita, vivia D. Amélia.

Senhora de muita idade, escorreita e independente, fazia a sua vida num pequena casa que apesar de não ter todas as condições desejáveis, servia à velha senhora para a sua pacata e simples vida. D. Amélia não era muito sociável, oferecia críticas a torto e direito, fosse ao município, fosse aos vizinhos, fosse aos passeantes e turistas que com as suas máquinas infernais tiravam fotografias constantemente à rua, ás janelas, às portas, à roupa pendurada nas janelas.

D. Amélia recusou a ajuda da assistência social e de alguns vizinhos, que preocupados, ofereciam-se para qualquer coisa que necessitasse. Mas, a idosa não aceitava, não queria ajuda e não deixava sequer que alguém entrasse na sua casa. Sem família, tinha uma sobrinha que morava no estrangeiro e que não via há anos, fazia as suas parcas compras na loja do Sr. Artur, mesmo ali na esquina e ninguém sabia como ocupava o seus dias. Um dia D.Amélia não se levantou da sua cama, não tinha forças para tal, e uma dor constante no peito não a deixava quase respirar. D. Amélia ficou deitada a pensar que a sua vida acabava ali, não tinha como avisar ou chamar alguém,  mas sentia- se tranquila, sentia que chegava, sentia que o fim era justificado, não tinha mais nada a fazer. Dois dias depois, algumas vizinhas mais atentas aos movimentos da rua, deram pela janelinha da casa da vizinha rabugenta estar fechada e acharam estranho.

 Numa rua estreita, vivia D.Amélia.

Que pena não ser uma carta

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Fevereiro 09, 2024

imsilva

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Que pena este texto não ser uma carta nas mãos de um carteiro 

Uma missiva nas mãos de um mensageiro

Um poema de amor para um enamorado que está longe

Um pedido de casamento para a menina que se esconde

Um grito de carinho da mãe para o filho

Um marido que mata saudades e beija seus filhos

Numa esperança de um reencontro em breve

Que pena este texto não ser uma carta nas mãos de um carteiro

Que sob sol e chuva faria a sua entrega no destinatário

Uma missiva nas mãos de um mensageiro

Que com a sua vida protegeria a mensagem do seu proprietário

Fevereiro 02, 2024

imsilva

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Este é o último texto do desafio dos cinquentas (2019) que republico. A viagem a que me referia no fim, aconteceu em Abril de 2022. Continuo a adorar as rugas de minha mãe.

                    

Rugas de minha mãe, que contais?

Pecados, sofrimentos e dores?

Prazeres, alegrias e amores?

Ruas tortas

Avenidas direitas

Becos de sol

Praças de chuva

Cruzamentos de dúvidas

Mas, muitos caminhos percorridos

Muitas pedras calcadas

E o descanso ali, na linha do horizonte,

a prometer uma outra viagem.

                  

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