Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

01.05.22

O caminho sem ti

Um dia da mãe agridoce


imsilva

2e5289541fdb5828d9f7530aafb18d5f.jpg

Está lá, o caminho, mas está escuro porque tu não estás.

Mas nós vamos continuar a caminhar, só que sem ti.

Vamos com certeza encontrar mais pedras no caminho,

vamos sentir falta do cheiro das flores,

e vamos continuar a caminhar, só que sem ti.

A paisagem mudou, falta-lhe um arco-iris

só a noite ficou mais bonita

há no firmamento uma estrela que brilha muito mais

e nós com um sorriso, olhamos para ela, só que sem ti,

porque é lá que estás tu, mãe.

 

Fernanda  18/9/1935 - 29/4/2022

29.03.22

O Amor de Gedeão


imsilva

2329153de3d63a485c30699cef6b3f8e.jpg

 

POEMA DO AMOR

Este é o poema do amor.
.
Do amor tal qual se fala, do amor sem mestre.
Do amor.
Do amor.
Do amor.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das fachadas dos prédios e dos recipientes do lixo.
Do amor das galinhas, dos gatos e dos cães, e de toda a espécie de bicho.
Do amor.
Do amor.
Do amor.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das soleiras das portas
e das varandas que estão por cima dos números das portas,
com begónias e avencas plantadas em tachos e em terrinas.
Do amor das janelas sem cortinas
ou de cortinas sujas e tortas.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das pedras brancas do passeio
com pedrinhas pretas a enfeitá-lo para os olhos se entreterem,
e as ervas teimosas a descerem de permeio
e os homens de cócoras a raparem-nas e elas por outro lado a crescerem.
Do amor das cadeiras cá fora em redor das mesas
com as chávenas de café em cima e o toldo de riscas encarnadas.
Do amor das lojas abertas, com muitos fregueses e freguesas
a entrarem e a saírem e as pessoas todas muito malcriadas.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor do sol e do luar,
do frio e do calor,
das árvores e do mar,
da brisa e da tormenta,
da chuva violenta,
da luz e da cor.
Do amor do ar que circula
e varre os caminhos
e faz remoinhos
e bate no rosto e fere e estimula.
Do amor de ser distraído e pisar as pessoas graves,
do amor sem amar nem lei nem compromisso,
do amor de olhar de lado como fazem as aves,
do amor de ir, e voltar, e tornar a ir, e ninguém ter nada com isso.
Do amor de tudo quanto é livre, de tudo quanto mexe e esbraceja,
que salta, que voa, que vibra e lateja.
Das fitas ao vento,
dos barcos pintados,
das frutas, dos cromos, das caixas de tinta, dos supermercados.
.
Este é o poema do amor.
.
O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.

Este é o poema do amor.

ANTÓNIO GEDEÃO, in OBRA COMPLETA (Relógio D'Água, 2004)

24.03.22

Histórias da vida real - I - Maria

Porque todos somos feitos de histórias.


imsilva

da3f92f97ae091f3f46e5dde596f7265.jpg

 

Maria reformou-se.

Maria chegou à idade da reforma e reformou-se. Maria queria fazer companhia ao marido aposentado por imposição há uns anos atrás, e com alguns problemas de saúde, apesar de muito activo.

Maria, a rapariga mais velha de 7 irmãos, e que com a morte prematura da mãe teve de ajudar a criar os irmãos mais novos, sendo ela também muito jovem.

Maria tem um coração do tamanho do mundo, sempre pronta a ajudar o próximo.

Maria não tem filhos, uma dor nunca superada. Maria tem sobrinhos por quem se desvela.

Maria tem paixão pelo seu marido, e durante os seus problemas de saúde (renais) foi um forte suporte, sem nunca abdicar da luta e conseguindo uma estabilidade que se traduziu numa vida cuidada e normalizada.

O marido de Maria adoece gravemente 15 dias depois de Maria se reformar.

O marido de Maria está entubado e ligado a uma máquina.

O marido de Maria morreu.

Maria reformou-se, e ficou sozinha.

16.02.22

Felicidade

7º tema de 52


imsilva

20220206_120323.jpg

                                                                                                           A primeira camélia

Esta é a 7° semana do desafio da Ana de Deus. O tema desta semana é a "felicidade"  e esta é a minha participação.

 

Felicidade

Perguntou-me o vento; O que te faz feliz?

- As tuas caricias mornas, os aromas do mar que trazes até mim, os aromas das flores que espalhas e nos fazes chegar aos sentidos.

Perguntou-me a terra; O que te faz feliz?

- Sentir que estás aí, que vives, que respiras, que renasces a cada dia.

Perguntou-me o sol; O que te faz feliz?

- A tua luz, quando no frio me aqueces, quando iluminas a vida para que tudo pareça melhor.

Perguntou-me a água; O que te faz feliz?

A tua frescura quando me matas a sede, quando refrescas e ajudas a reiniciar a terra, quando nos lavas o corpo de cansaços e pó.

Perguntou-me o amor; O que te faz feliz?

- Quando te sinto num olhar, num gesto. Quando o abraço acalma o coração e tudo fica bem. Quando pairas na atmosfera, e te sentimos a rondar as emoções.

Perguntou-me o tempo; O que te faz feliz?

Poder abraçar e beijar os meus. Ouvi-los falar das suas coisas, e saber que estão bem. Ficar a levitar com um livro, acompanhada pelos meus pensamentos.Sentir que por mim passas, que estás aí, que ainda estás aí, e que espero ter-te por mais tempo, a ti que és o tempo.

14.02.22

5 coisas de Neruda


imsilva

FB_IMG_1640126836392.jpg

Quero apenas cinco coisas...

Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos..
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda
Adaptação do poema "Peço Silêncio"
Il. Almada Negreiros

01.02.22

Os meus, os nossos pais, e os pais deles.


imsilva

20220201_105018.jpg

 

Tenho lido alguns textos em resposta ao desafio da Ana de Deus, de colegas da minha geração, e serviu para confirmar que os pais também são geracionais. 

Os pais daquela época eram mais frios, apesar de amarem e quererem o melhor para os seus filhos. Talvez por também não terem tido o calor dos abraços, ou os olhares ternos que hoje não temos qualquer problema em mostrar, porque os pais deles também não o sabiam fazer e tinham vidas ainda mais complicadas. Eu falo da vida que por aqui se levava, e acreditem que me custa a acreditar nas histórias que lhes ouço, sabendo que são verdadeiras.

A minha mãe pouco conta daquela época, com 8 anos foi servir para a cidade, e com esse afastamento de casa as memórias não são muitas. Perdeu o pai com 6 anos e a mãe teve que levar 7 filhos para a frente, com pouco apego e muito desembaraço. Conheci a minha avó e gostava daquele ar duro que demonstrava, mas que se notava que com a idade era mais fachada do que outra coisa. O meu pai, apesar das dificuldades, eram também 7 irmãos, conta mais a sua história. A sua paixão pela mãe maravilhosa que teve, e que eu posso confirmar, e o pai que nenhuma atenção dava, e do qual um dia destes vou contar um episódio que trouxe as lágrimas aos olhos do meu pai quando a relatou há pouco tempo.

Os meus pais são hoje mais doces do que foram, devido à idade, à vida mais calma que passaram a levar sem as preocupações de pagar contas e descobrir como o poderiam fazer, e aprenderam as demonstrações de carinho com os netos e os bisnetos. Hoje são mais doces, e gostam disso. Mas ninguém lhes tinha explicado que a autoridade paternal não se perdia se houvesse mais beijinhos e abraços e "diz-me como estás, como está a tua vida na escola, tens algum problema em que eu possa ajudar?"

Hoje vivem a nossa vida, os nossos problemas com muita intensidade, tal que alguns não chegam a conhecer para evitar-lhes preocupações. Estão sempre disponíveis para o que for, e apesar das mazelas que de vez em quando os manda abaixo, continuamos a contar com eles. O meu pai a dar os seus infindáveis conselhos, e a minha mãe sempre a perguntar por todos os que não estão tão perto, e que lhe deixa uma ruga de preocupação na frente. A felicidade maior é conseguirmos estar todos juntos, quantos mais, quanto mais algazarra melhor, e já somos peritos em inventar motivos para tal.

Durante a pandemia, fizemos o melhor que pudemos para que não ficassem muito isolados. Não têm sido tempos fáceis para eles, aceitar que um estúpido vírus manda em nós, não é fácil de entender para quem passou por tantas coisas boas e más, mas que podiam comandar.

Que pais estaremos nós a ser? que dirão de nós um dia?

Meus filhos, se um dia lerem isto que seja para perceberem que tentamos, bem ou mal, tentamos fazer o melhor que pudemos e soubemos. Sejam caridosos! 

12.01.22

Queres casar comigo?


imsilva

20211201_162004.jpg

Encontrei esta inscrição a caminho da praia.

Quem a terá escrito? Terá tido êxito? Terá sido sincera? Quanto sentimento terá colocado nesta proposta? 

Gostaria de conhecer a história que levou alguém a massacrar as pedras com instrumento afiado, de maneira a poder ficar gravado para todo o sempre num chão da vida.

Penso na felicidade que poderá ter proporcionado, ou na desilusão que poderá ter causado na pessoa que apaixonadamente, pensou que a sua felicidade passava por ter aquela pessoa como cônjuge.

São momentos históricos na vida de alguém, que servirão para escrever memórias que farão sorrir ou chorar quando recordadas.

 

31.12.21

Feliz 2022!!!


imsilva

f504b4e4c9454141f72d18002803465f.jpg

 

A partir de amanhã teremos um ano novo a  estrear. O que faremos com ele? Sabemos que vem com um vírus que não nos larga há 2 anos, e rezamos a todos os anjinhos para que seja o seu último ano connosco. Fora isso, tentemos preencher este novo ano com uns raios de bondade, uns grãozinhos de civismo, uns laivos de sensatez, umas pinceladas de amor e uma pitada de respeito por tudo o que habita este planeta. Sejamos bons, sejamos justos, sejamos felizes e pintemos este novo ano com as cores mais bonitas e mais brilhantes que conseguirmos.

Feliz Ano Novo!!!

Feliz 2022!!!

  🌟

 

20.12.21

O Presépio somos nós.


imsilva

20211215_101821.jpg

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno

José Tolentino Mendonça