desafio de escrita dos pássaros #11
Momentos familiares
Novembro 22, 2019
imsilva
A Tininha, com a fralda a transbordar de caca bem cheirosa que se farta, chora. Chora? não, grita!
O Chiquinho bate com o carrinho vermelho dos bombeiros no radiador, só para ouvir o maravilhoso barulho que faz. Música para os seus ouvidos.
A Ritinha põe o som da sua aparelhagem mais alto, para se sobrepôr a todos os outros barulhos já existentes naquela casa. Tem os fones avariados.
O Tareco, armado em homem (gato) aranha, anda por cima dos móveis mais altos, e volta e meia lá cai qualquer coisa ao chão onde se estilhaça, uma moldura com a fotografia de casamento dos papás, um jarro com duas rosas, uma taça de vidro (essa oferecida pela tia Amélia, a dona vai agradecer).
A Mica gane e esconde-se por baixo de mesas e cadeiras, assustada com o nível acústico que tomou conta da casa. A cadela vem de um canil, onde foi adoptada pela família, depois de maus tratos e abandono pelos antigos donos.
A mãe, ao telefone com a melhor amiga, queixa-se de não conseguir tomar um banho sossegada, e que está a centímetros de se passar completamente dos carretos.
O pai diz que vai para a garagem tratar da mota, porque se não sai daquela casa de malucos, não se responsabiliza pelos seus actos e quem vai ficar maluco é ele, e também já não falta muito para isso.
Ouve-se a campainha da porta (não sei como é que ouviram) e a mãe, ainda de telefone ao ouvido vai abrir. Um carteiro de olhar assustado, entrega uma encomenda e sai a correr, esbaforido, sem perceber o que se passa naquela casa, que ultrapassa longamente os decibéis permitidos por lei.
Da cozinha surge uma fumarada, que rapidamente alastra ao resto das dependências da casa, e que põe toda a gente aos gritos (mais ainda) e com olhos lacrimejantes. Esqueceram-se das torradas na torradeira, que tem o automático avariado, e agora são fatias de carvão.
E eu no meu poleiro, elevo os meus trinados a patamares nunca antes alcançados, só porque sim, não quero ser diferente dos outros.
Atenção! Isto não é todos os dias assim. Hoje é que saiu um bocadinhos dos eixos, que os meus donos até são porreirinhos e normalmente conseguem ter tudo sob controle.
Palavra de canário!