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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

02.03.21

A casa de Mia Couto


imsilva

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A Casa

Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…
E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

Mia Couto, Tradutor de chuvas

08.01.21

Uma casa, uma vida


imsilva

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A lareira estava apagada, triste, cinzenta, e o frio entrava pelas frinchas da porta e da janela.

Mas não se podia gastar a pouca lenha que havia e que tão necessária era à hora da janta, em que se cozia umas batatas e umas couves sobreviventes das geadas que ocorriam naquela altura do ano.

A casa era pequenina, só com duas habitações, a cozinha onde estava a mesa em que tudo acontecia, e o quarto com duas camas  onde todos se conseguiam aninhar, os pais e os três filhos.

O Natal tinha passado sem que dele dessem conta. Não havia festividades que entrassem naquele frio lar, onde tudo era escasso.

Nem sempre tinha sido assim, o pai sempre tinha trabalhado, ou nisto ou naquilo, os vizinhos chamavam-no para vários serviços a que ele acudia prazeroso. A mãe ajudava as senhoras das casas grandes nos seus afazeres domésticos, e nos tratamentos da roupa.

Mas agora, não havia quase vizinhos, restavam o Sr. Aurélio e a D.Gertrudes que se recusavam  a ir para casa dos filhos, e deixarem as suas raízes e a casa onde tinham criado os seus cinco filhos, mas que não deixaram de lhes dizer que eles sendo muito mais novos deveriam deixar a aldeia e ir em busca de outra vida, que a idade era outra coisa e enquanto os dois fossem vivos não tinham ensejo de sair para lado algum, que quando um faltasse, talvez...

Também as casas grandes já jaziam fechadas, embrulhadas em hera e outras ervas trepadeiras que quase tapavam as fachadas.

Os últimos tempos tinham sido conturbados. Ouviram falar de revoluções, de cravos e de mudanças de governantes, de reformas agrárias e de cooperativas, mas disso eles pouco ou nada percebiam. Só sabiam que as pessoas tinham deixado as suas vidas lá na terra, e tinham corrido atrás de promessas de melhores vidas nas cidades. Alguns havia que pareciam fugir de alguma coisa. Segundo diziam, lá na cidade era tudo mais fácil, que tudo estava à distância de dois passos.

Mas eles não quiseram sair do seu canto, da terra que amavam. Temiam as multidões, as modernices de que ouviam falar mas que não entendiam.

E os filhos cresciam, e os pais começavam a perceber que o seu futuro talvez não estivesse ali, que estava na altura de irem para uma escola aprender algo mais do que os pais tinham aprendido. Que talvez se pudessem preparar para algo mais , sem ser a luta diária que a terra dava para se viver. Mas depressa esqueciam tais dilemas quando voltavam à labuta diária, por pouco que esta rendesse.

Ao fim do dia, depois da parca refeição, olhavam um para o outro. Não estando habituados a conversar sobre a vida, ou não sabendo como fazê-lo, tentavam adivinhar o que o outro sentia, e assim iam vivendo.  

Quando o filho mais pequeno apareceu uma manhã com febres altas e completamente prostrado, foi quando decidiram que ali não faziam nada, que ali ficariam todos enterrados se não tomassem as decisões certas, isto se não fosse já demasiado tarde.

E acabou por chegar o dia em que fecharam a porta de casa, e com a claridade do dia a surgir por detrás do monte, fizeram-se ao caminho com os seus poucos haveres, o coração encolhido e a alma aberta para o que a vida lhes quisesse ofertar na linha do horizonte que viam à sua frente.

02.10.20

A casa

Saudade


imsilva

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Lembra-se da casa, de quando era pequena. Uma casa de tijolo, de janelas com portadas azuis e na porta um batente em forma de punho.

Que saudades...

Lá dentro as paredes estavam pintadas de um verde "seco" e as janelas, que ela se lembrava de ver o avô de vez em quando de roda delas a raspar e a pintar, eram brancas. As cortinas eram às flores, côr de rosa e vermelhas com muitas folhas de várias verdes, entre eles o tal verde "seco". E como alegravam a casa. Nessas mesmas janelas, lembrava-se de encima de um banco, espreitar para as casas do outro lado da rua, e de ver a senhora do cão a tratar do jardim e das magnificas rosas que lá tinha.

Por baixo das escadas que davam para o 1º andar, havia um espaço maravilhoso onde gostava de passar o tempo. Levava um cobertor, punha-o no chão, e era lá que lia um livro,  que pintava desenhos ou que vestia e despia as bonecas com as roupas que a avó lhes fazia.

No Inverno acendiam a lareira e sentava-se ao colo do avô para ouvir as suas histórias. A avó tinha sempre bolinhos e bolachas que fazia no grande forno da cozinha, e que deixava a casa a cheirar maravilhosamente bem. 

Que saudades...

Hoje a casa já não cheira a bolos, os avós já não estão lá há uns anos, e ela já não é pequena.

Hoje ela está à cabeceira da avó, que depois de muitos anos de luta e de dar amor e atenção a toda a gente, vive os seus últimos momentos.

E ela com saudades de tudo o que viveu naquela casa, e com quem o viveu, pensa em lá voltar, pensa que tem de vê-la porque...quem sabe?

 

Texto escrito no âmbito deste Desafio

 

 

 

17.06.20

Inquilinos


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Aluguei a portada da janela a esta simpática família de andorinhas.  Pai, mãe e o filhote, do qual só se vê o rabinho.

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Quando alguma amiga se aproxima para arranjar poiso, leva logo umas bicadinhas,  que fica logo sem vontade de poisar. Isto é que é defender a casa.

 

02.05.20

O dia


imsilva

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Sairam os quatro do edificio.

 Já está - disse o pai 

Está feito  - disse a mãe                                                                         

Tinham acabado de casar. Depois de 14 anos de união, e de dois incriveis filhos, eram marido e mulher.

Olharam para as duas crianças com amor, e para comemorar tiraram uma selfie um tanto ou quanto bizarra, por terem as bocas e os narizes tapados por máscaras. O edificio do Registo Civil ficou por detrás, qual muda testemunha.

Vamos para casa?

Os rapazinhos não estranharam, já estavam a ficar habituados ao confinamento. Aquele dia não iria ser muito diferente. Em vez de irem festejar com a família, ou irem comer a algum sítio todos juntos, iriam para casa.

Mas o que é a nossa casa senão o nosso casulo, o sítio onde está o amor, o conforto e a felicidade?

Haveria tempo para celebrações, muito tempo... 

 

 

02.04.20

Fácil? não!


imsilva

 

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Ontem, no face, vi um texto de Marta Gautier . Numa época normal, aplaudiria e concordaria porque eu própria gosto muito de estar em casa. Só que não vivemos tempos normais, e quem está em casa não é por vontade própria, mas sim por imposição exterior. Para além disso, também não é uma estadia isenta de preocupações, grandes preocupações, porque não estamos a viver dos rendimentos, descansadinhas, porque as finanças estão asseguradas, (pelo menos aqui em casa). Não, tudo o que faziamos para termos o sustento assegurado, foi-se! E não sabemos quando poderemos recomeçar. Ou seja, pagar aos funcionários, pagar rendas (plural), vai continuar a acontecer, mesmo sem saber como. 

Eu também estou muito bem em casa, tenho livros, papel e lápis suficientes para ser feliz. Mas para além disso também tenho (grandes) preocupações, que não me deixam usufruir dessa felicidade, aparentemente tão fácil.