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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

29.09.22

Casamento, ou não...

Desafio das palavras sobre nós. semana #5


imsilva

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Ela está linda, mas não o sente. Sente-se à beira de um abismo.

Ela caminha com passos incertos, inseguros, passos que têm dificuldades em serem dados.

Ela crê que não terá coragem, apesar de ser a sua felicidade que está em jogo.

Ela sonha com uma simples hipótese de ter o seu sítio, o seu lugar e um amor que lhe dê companheirismo, amizade, uma mão que a ajude a subir montanhas ou a atravessar um rio. Ela sonha com um beijo a saber a mais, a saber a vida.

Ela sabe que o futuro não lhe sorri, ela julga saber que o amanhã não será dela. 

Ela para na sua caminhada pela nave, e deixa o seu olhar cair na figura que a espera.

Ela respira fundo, sentindo que o ar que entra não é suficiente. Ela sente que os seus pensamentos galgam barreiras e muros que julgava intransponíveis. Ela  acorda da letargia que a consome há muito tempo, e reage.

Ela olha, e o seu olhar diz tanto. Quem a mira percebe, reconhece o olhar de alguém que tomou uma decisão, e virando-se, pedindo desculpas silenciosamente, sem necessidade de palavras, dirige os seus passos no sentido contrário, apressados, decididos, sem qualquer dúvida ou medo.

Ela afinal sabe quem é, sabe o que quer e sabe o que não quer.

Ela sabe que não quer que a pisem, que a amarrem, que não olhem nos seus olhos, que não ouçam o que tem para dizer.

E ela sabe onde está o que quer, ela conhece o caminho que a pode levar até lá, e serenamente, confiante, é para lá que dirige os seus passos, desta vez sem coações ou constrangimentos. Desta vez com as suas certezas e desejos no comando.

Para trás fica o passado, fica o que ela não quer. 

 

Participação no desafio da Célia

12.01.22

Queres casar comigo?


imsilva

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Encontrei esta inscrição a caminho da praia.

Quem a terá escrito? Terá tido êxito? Terá sido sincera? Quanto sentimento terá colocado nesta proposta? 

Gostaria de conhecer a história que levou alguém a massacrar as pedras com instrumento afiado, de maneira a poder ficar gravado para todo o sempre num chão da vida.

Penso na felicidade que poderá ter proporcionado, ou na desilusão que poderá ter causado na pessoa que apaixonadamente, pensou que a sua felicidade passava por ter aquela pessoa como cônjuge.

São momentos históricos na vida de alguém, que servirão para escrever memórias que farão sorrir ou chorar quando recordadas.

 

05.11.21

O dia (parte II)

O compromisso


imsilva

 

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            O dia (parte I)

A minha filha tem uma aliança nova no dedo.

Um símbolo de uma das escolhas  que temos de fazer na vida. Um compromisso assumido no desejo de uma vida em conjunto, para o bem ou para o mal, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, na alegria ou na tristeza.

No desejo de fazer um caminho acompanhada, de poder agarrar numa mão sempre que necessitar, no desejo de consolar e ser consolada sempre que preciso for. No desejo de partilhar alegrias, orgulhos, preocupações, e a vontade de ajudar os dois seres que deles nasceram, e que ambos querem que sejam felizes para todo o sempre e mais além.

Da minha parte, e com certeza da parte de todos os que os amam, que assim seja. Que o caminho seja o mais direito possível, que os desvios sejam só para admirarem juntos a paisagem por onde passam. Que as pedras que encontrarem sejam para irem construindo  uma fortaleza, e que seja forte para durar até ao fim das suas  vidas. Que os sorrisos e o amor não lhes falte, mesmo nos momentos menos bons, pois serão uma ajuda preciosa para levantarem os muros que caírem. 

Por favor, sejam felizes e aproveitem tudo o que a vida vos pode oferecer.

 

16.04.21

O Colar


imsilva

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O colar de pérolas

Olhou para a caixa de veludo azul que se encontrava em cima da mesa, e as recordações assaltaram-na.

Recordou o dia em que o marido lha tinha oferecido, o dia em que tinha chegado a casa com a filha ao colo, acabadas de chegar da maternidade.

Recordou as várias ocasiões felizes em que o tinha usado. Festas de aniversário, de Natal, no casamento dos filhos e sempre que lhe apetecia sentir a maciez e a frescura das suas pedras. 

Tinha sido uma vida feliz, tal como essas ocasiões. Não se podia queixar. Talvez só do facto de ter ficado sozinha cedo demais, sem poder usufruir do amor do seu companheiro até ao fim da sua vida, ele tinha partido primeiro.

Sentindo o aconchego que todas essas memórias lhe tinham trazido, levantou-se e vestindo o seu bonito casaco branco de caxemira, pegou na caixa de veludo azul e saiu de casa.

Conduzindo o seu pequeno e fiel automóvel, dirigiu-se a casa da filha. Quando entrou, foi recebida pela euforia e movimentação que lá reinava, o que não era de estranhar, já que o dia assim o exigia.

As netas vieram ao seu encontro e deram-lhe um rápido beijo e correram escadas acima.

Um serviço de catering preparava as mesas com acepipes e aperitivos para todos os gostos, destinados aos convidados que em breve chegariam.

Quando encontrou a filha, esta recebeu-a com um abraço e juntas subiram as escadas até ao quarto de Leonor, a sua neta mais velha.

Ao chegarem lá, os olhos da avó vidraram-se e ficou sem palavras. Leonor estava belíssima com o seu vestido branco de renda, que na sua simplicidade, brilhava mais que qualquer vestido de princesa.

Avó e neta abraçaram-se já com as lágrimas a cair, e a senhora mais velha abriu a sua mala e retirou de lá a caixa de veludo azul. Abrindo-a, tirou o colar de pérolas que a tinha acompanhado grande parte da sua vida, e colocou-o à volta do pescoço da neta. - É para ti meu amor. Que vivas com ele momentos tão felizes como eu vivi.

Leonor virou-se para o espelho, e delicadamente tocou naquelas pérolas que tantas vezes vira no pescoço da avó.

E através do espelho, trocou olhares com aquela pessoa que sempre tinha tido ao seu lado, a apoiá-la em tantos momentos durante a sua curta vida, e não foram precisas palavras.

02.05.20

O dia


imsilva

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Sairam os quatro do edificio.

 Já está - disse o pai 

Está feito  - disse a mãe                                                                         

Tinham acabado de casar. Depois de 14 anos de união, e de dois incriveis filhos, eram marido e mulher.

Olharam para as duas crianças com amor, e para comemorar tiraram uma selfie um tanto ou quanto bizarra, por terem as bocas e os narizes tapados por máscaras. O edificio do Registo Civil ficou por detrás, qual muda testemunha.

Vamos para casa?

Os rapazinhos não estranharam, já estavam a ficar habituados ao confinamento. Aquele dia não iria ser muito diferente. Em vez de irem festejar com a família, ou irem comer a algum sítio todos juntos, iriam para casa.

Mas o que é a nossa casa senão o nosso casulo, o sítio onde está o amor, o conforto e a felicidade?

Haveria tempo para celebrações, muito tempo...