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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

05.03.21

O que aprendi com uma pandemia


imsilva

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O que eu aprendi neste ano que passou entre Março e Março.

Aprendi a viver com imprevistos.

Aprendi que afinal dá-se a volta e segue-se em frente.

Aprendi que somos fortes.

Estando eu num dos ramos mais afectados por esta pandemia, aprendi que não estando preparados, depressa nos preparamos para os cataclismos sociais desta vida.

Aprendi que nada é garantido, quando uma coisinha que nem se vê nos vira a existência de cabeça para baixo.

Aprendi (mentira, que eu já sabia) que estar em casa sem compromissos exteriores é muito bom. Logicamente que no contexto em que foi, não foi devidamente apreciado, mas...

Aprendi que aquilo que julgamos impossível, passa a possível enquanto o diabo esfrega o olho.

Aprendi a nunca dizer nunca.

Não posso dizer que tenha aprendido, porque já sabia, mas confirmo o que já referi várias vezes, não esperem melhorias no ser humano, quem era boa pessoa vai continuar a ser, e quem já não o era, não vai passar a sê-lo.

E creio que aprendemos todos, que não mandamos, que pouca importância temos, e que afinal não somos os donos disto tudo.

12.02.21

Abraços e beijinhos precisam-se!


imsilva

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Na quarta-feira, na RTP, na entrevista de Vitor Gonçalves ao Psiquiatra e Psicoterapeuta Vitor Cotovio, sobre saúde mental, (se possível vejam), falou-se de algo que eu ainda não tinha ouvido, mas já tinha pensado.

Alguém perguntou aos idosos que isolaram nos lares sem visitas, sem carinhos familiares, aqueles que deixamos em casa sozinhos porque havia aí um vírus à solta, aqueles que entendemos (sim, eu também) que ficariam melhor sem os nossos beijos e abraços, se era isso que preferiam? Creio que não.

Os meus pais apesar de terem a sua idadezinha, estão muito bem, e foi-lhes explicado o que se estava a passar, e que seria melhor restringirmos as nossas visitas e os nossos afectos. No 1º confinamento foi mais moderado, os beijinhos foram deixados para trás, mas havia os abracinhos e algumas refeições feitas em conjunto. Em Setembro a minha mãe fez anos e recusou a ideia de não irmos todos jantar como é habitual nestas alturas. Consciente da época que estamos a viver, foi a decisão tomada, apesar do suposto risco que poderíamos (poderiam) correr. No Natal reduzimos o nº mas juntamo-nos, seria impensável os meus pais passarem sozinhos essa festa. 

Veio o Janeiro e o "estado da nação" obrigou-nos a outros cuidados. Não perguntamos, mas falamos de como teria que ser para que ninguém fosse parar ao hospital. O meu pai entretanto fez anos e com máscara, sem afectos físicos, sem almoço nem jantar de celebração, fui lá a casa para conectar a família em vídeo chamada e podermos de alguma maneira estar com ele nesse dia. Foi muito duro.

E se lhes perguntasse directamente se não se importam de viver assim, se prefeririam correr o risco e ter a companhia que sempre tiveram antes? Somos muitos e sempre houve alguém a almoçar lá em casa por um motivo ou por outro ( muitas vezes por nenhum).

Tenho medo de perguntar, porque sei como pensam. Provavelmente diriam que já não têm assim tanto tempo de vida, como para desperdiçar sozinhos em casa a implicar um com o outro, sem aquela família maluca à volta deles. Tenho medo que tenham razão. 

Há pouco vi um pequeno texto que dizia que os avós têm que esperar pelos "abraços quentinhos". Que se deseja que os números de óbitos por covid, desçam a zero. E eu espero que não seja só aí que eles possam ser abraçados, porque se assim for, muitos desses avós não chegarão a receber esses abraços.

25.01.21

Ontem, hoje e... amanhã


imsilva

Ontem, a minha irmã recebeu o resultado de um teste, e foi positivo. Não está grávida, tem COVID19. Está bem, alguns sintomas ligeiros.

Ontem, saí de casa e fui votar. Votei sempre e nunca apanhei tanta gente a fazê-lo. Não entendo o porquê, porque a votação dentro das salas foi feita com rapidez, mas as filas eram enormes.

Ontem fui a casa dos meus pais, não ia há duas semanas, mas fui com os devidos cuidados, e através do telemóvel fiz vídeo chamadas para verem que a filha mais velha estava bem, e para se poderem despedir do neto (pelo telemóvel) que hoje foi para fora.

Ontem fiz o serão da praxe em noite de eleições, ouvi os discursos dos candidatos na televisão e sem grandes surpresas, para além das que já se esperavam...fiquei na mesma.

Hoje, despedi-me do meu filho que foi novamente para fora.

Hoje, preparo-me para juntamente com toda a família, cantarmos os parabéns ao meu pai à distância. Alguém irá com um tablet para nos ligar-mos todos e assim podermos por primeira vez, não estarmos presentes, mas celebrarmos de alguma maneira mais um ano.

Hoje, vou continuar em confinamento, em casa, com a ansiedade a espreitar e eu a fazer que não percebo.

Amanhã, vamos juntar a família num al moço que durará até à noite, e acabará com a canja da avó, antes de irmos para casa.  Riremos e faremos a confusão inerente à ocasião, como sempre.

Amanhã, juntar-me-ei com os meus amigos, darei beijos e abraços sem máscaras nem medos, sem empecilhos, só com amor e amizade.

Tal como ontem e hoje, amanhã nascerá o sol, e com uma esperança teimosa, espero que seja para todos.

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Ontem, hoje e amanhã, sinto-me pendurada...

02.05.20

O dia


imsilva

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Sairam os quatro do edificio.

 Já está - disse o pai 

Está feito  - disse a mãe                                                                         

Tinham acabado de casar. Depois de 14 anos de união, e de dois incriveis filhos, eram marido e mulher.

Olharam para as duas crianças com amor, e para comemorar tiraram uma selfie um tanto ou quanto bizarra, por terem as bocas e os narizes tapados por máscaras. O edificio do Registo Civil ficou por detrás, qual muda testemunha.

Vamos para casa?

Os rapazinhos não estranharam, já estavam a ficar habituados ao confinamento. Aquele dia não iria ser muito diferente. Em vez de irem festejar com a família, ou irem comer a algum sítio todos juntos, iriam para casa.

Mas o que é a nossa casa senão o nosso casulo, o sítio onde está o amor, o conforto e a felicidade?

Haveria tempo para celebrações, muito tempo... 

 

 

27.04.20

Andamento em tempos anormais


imsilva

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Muito andamos na vida, e muito esperamos ainda andar. Mas em que termos e condições?

" Não são tempos normais" frase corriqueira de todos os dias, mas a cada dia que passa, fica mais e mais notório o significado, e mais doloroso também.

Medo da doença? Mais medo do depois, dos reflexos que ficarão nas nossas vidas, medo do desconhecido que "este algo" nos quer impingir, medo do durante, do espaço-tempo até podermos dizer "já passou".

Não era assim que a nossa vida estava planeada, não foi nada disto que nos ensinaram em pequenos, nem na escola nem em casa. Não há referências para sabermos que armas devemos usar.

Tenho a alma vestida de escuro. As manhãs são as mais complicadas, quando depois de acordar, levo com uma bofetada na cara quando me lembro. Não ando triste, mas tudo me enche os olhos de água.

Estou muito bem em casa, tanto que até receio a volta ao trabalho e a tudo o que isso implica, apesar de saber que se não voltamos depressa a coisa pode ficar realmente feia.

Saudades? Muitas! Dos pais, dos filhos, dos netos, (ai, ui, dói), e de uma dúzia de pessoas mais, não mais do que isso. Talvez o resultado de lidar com muita gente durante toda a minha vida, boa gente e apesar de ser no plano profissional, alguns passaram ao nível da amizade, mas também fez com que agora saiba apreciar o sossego.

Uma última coisa, a morte, a estúpida morte. A minha mais do que sincera compaixão por todos os que estão a passar pela despedida dos seus entes queridos. Morreram alguns familiares meus nestes últimos tempos, nenhum com Covid19. Tanto a família do meu marido como a minha, somos pessoas de nos reunirmos nos velórios e funerais. Somos unidos e estamos lá nessas alturas, e agora nada. O último foi há dois dias, e pelas palavras do meu marido que passou no cemitério nessa altura, foi terrorífico. Os senhores da funerária estavam vestidos com fatos de ficção cintífica com direito a máscaras daquelas com tubo para receber ar. Como é que se poderão sentir os familiares (sózinhos) que se despedem assim do seu marido e do seu pai, com pessoas que parecem saídas de um filme. Não tenho mais que comentar.