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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

10.11.21

Desafio "Arte e inspiração" #9

Cabelo e planetas


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Cara Sra.

Serve esta para a informar que o Sr. Américo Fontão Vargas da Mata, falecido em 28 de Outubro de 2021, deixou expresso que queria que ficasse na sua posse o quadro "Cabello perseguido por dos planetas" de Joan Miró.

Como tal, tomei a liberdade de lho enviar, uma vez que a sua residência não se encontra neste país.

Espero que aí chegue em perfeitas condições, e que o possa apreciar como o seu tio-avô apreciava.

 

Os meus mais sinceros pêsames.

Atenciosamente

Alberto Mota Queirós

 

Amália, estupefacta com a carta que tinha na mão, pensou no irmão do seu avô que teria visto em criança sem ter memória dos seus traços, e olhou a embalagem que tinha na frente, com a curiosidade em alta.

Cuidadosamente começou a tirar papel, plástico de bolhas, cartão e tudo o que tinha a proteger o trabalho de um tão grande artista como Joan Miró. Tinha conhecimento de alguns dos seus quadros e estava entusiasmada por ter um deles na sua parede da sala.

Quando, finalmente, conseguiu chegar ao âmago do embrulho, ficou um pouco baralhada e tentou pôr o quadro em posiçao correcta sem grande resultado. Olhou e olhou e pensou para os seus botões - Com tanto quadro que existe, tinha que me calhar este?

Felizmente o sofá de Amália era verde! Talvez não fosse assim tão mau...

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

03.11.21

Desafio "Arte e inspiração" #8

Caras e corações


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Ilustração de moda  -  Almada Negreiros 

 

Quem vê caras não vê corações.

Quem os vê todos bonitos e aperaltados não imagina o que está por detrás. 

Este casal não é o que parece, ou talvez sim, são os maiores traficantes que possam imaginar. Conseguem enganar o padre da freguesia, não que seja muito difícil, e ludibriar o mais inteligente dos mafiosos.

A sua fama vai longe, mas ninguém os conhece, só sabem que existem.

Se aqui os denuncio, é só para que não se fiquem a rir. Agora já todos lhes conhecem os focinhos!

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento.

Desculpem! Foi o que se arranjou, só para não falhar esta semana 🤭

29.10.21

Ainda..."o beijo"


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Um beijo...

Senta-se numa esplanada, com um café à frente. Tinha tido uma conversa telefónica desagradável com a pessoa que supostamente se teria de sentir melhor, amando e a ser amada

Espraia os olhos pela paisagem que tem à frente, uma beira-mar com o sol a caminhar na água, e dá pela presença de duas pessoas aparentemente de idade respeitável, sentadas num banco não muito longe de onde ela própria está. Não ouvindo o que dizem, apercebe-se muito bem das suas expressões e gestos e tudo leva a crer que há muita atenção e carinho nos olhares.

Está encantada com os cabelos brancos do casal, com a echarpe em tons salmão da senhora, e a mão do senhor entrelaçada na dela.

E é quando acontece algo que lhe traz as lágrimas aos olhos, o senhor inclina-se em direção à companheira e delicadamente junta os seus lábios aos dela, onde ficam por um momento que parece eterno, tal a intensidade dos sentimentos transmitida.

E ela deseja um dia também ser beijada assim.

 

 

 

 

20.10.21

Desafio "Arte e inspiração" #6

Diferentes infâncias


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                                                           O sobreiro - Rei D. Carlos de Bragança 

O avô contava ao neto as vezes que tinha esfolado as pernas a trepar àquela árvore. Até lhe contou, à laia de segredo, que era por isso que ela estava vergada e ela própria esfolada também. Era da quantidade de vezes que os miúdos subiam para os seus ramos. Mas, que tinha a certeza que também estava vergada pela tristeza que sentia por já não haver crianças que a quisessem trepar. Sentia, com toda a certeza, falta do calor dos seus braços e pernas, dos seus gritos de entusiasmo quando conseguiam chegar lá acima.

O avô perguntou ao neto se queria experimentar, o neto olhou para os ramos da árvore e não se sentiu muito seguro de que seria uma coisa correcta, nem era algo que  alguma vez tivesse feito ou que desejasse fazer, olhou para as suas calças e pensou no que a sua mãe diria se as esfolasse, para além da ansiedade que a ideia lhe provocava.

O avô, adivinhando os pensamentos do neto, teve pena das crianças que nunca saberiam o que era a liberdade de subir a uma árvore, e de esfolar um joelho que arderia como tudo, mas que daria tanto prestígio. Não tendo coragem de desafiar o neto para tal experiência,  mais por medo dos pais do que por outra coisa, deu a mão ao neto e voltando as costas ao secular sobreiro, continuaram o passeio pela bela e calma paisagem de uma pacata aldeia, tão longe e tão perto da buliçosa cidade onde as crianças não trepavam às árvores. 

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

13.10.21

Desafio "Arte e inspiração" #5

Limbo


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El sueño, Frida Khalo (1940)

De olhos fechados,  sonhei contigo. Miravas-me de um modo que eu não conseguia decifrar.  Pensei se seria amor ou se seria rancor, mas era com certeza um olhar intenso, um olhar perturbante.

Quis acordar, mas as pálpebras pesavam, não as comandava, não me obedeciam.

Senti-me a pairar algures numa outra dimensão, e com vontade de lá ficar. 

Foi quando o meu corpo estremeceu fortemente,  como se um choque eléctrico o tivesse percorrido. Senti o ar a invadir os meus pulmões e acabei por abrir os olhos, um sentimento de medo se apoderou de mim.

Ao abrir os olhos compreendi.

Afinal não eras a morte, mas sim a vida a chamar-me de volta.

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

 

29.09.21

Desafio "Arte e inspiração" #3

Desespero


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"O Grito" de Edvard Munch

 

Estava preso na garganta, no pensamento, no mais recôndito do seu ser, do seu subconsciente. 

Queria soltar-se, queria largar-se pelo mundo mas estava preso. 

Preso às convenções, preso às boas maneiras e à boa imagem de quem nada sofre, preso à ideia de que ninguém esperava isso dele.

Mas, quando já era impossível retê-lo, quando o soltou, o espírito também gritou e acabou a sorber o ar com sofreguidão, como se há muito lhe faltasse.

E com este grito, as pedras estremeceram, os pássaros silenciaram, o vento cessou... e o mundo chorou.

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

 

 

 

22.09.21

Desafio "Arte e inspiração" #2

Estrelas e vida


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Stary night de Vincent Van Gogh.

 

Quando a 1º estrela apareceu, ela deu o 1º grito. a partir daí, as dores foram sempre aumentando até sentir que não aguantaria mais.

Entretanto, no céu, mais estrelas iam ocupando o seu lugar.

Quando sentiu que o seu corpo se desgarrava, fechou os olhos e deixou de sentir ou pensar por milésimos de segundo, para imediatamente se encontrar noutra dimensão, onde uma paz prevalecia.

Pacificamente abriu os olhos, para descobrir o milagre da vida. Um pequenino ser que respirava por 1º vez com os seus próprios pulmões, e que se lembrou de constestar a viajem que tinha acabado de fazer, exigindo tudo a que tinha direito.

Nesse momento, o céu estava já repleto de estrelas.

 

Texto no âmbito do desafio da  Fátima Bento.

15.09.21

Desafio "Arte e inspiração" #1

Poder e força


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 "A Grande Onda de Kanagawa" de Katsushika Hokusai

 

Enfurecido, tentaste mostrar a força, o tamanho e o poder que a água te confere.

Assustaste alguns incautos desprevenidos que te menosprezaram, e que contigo nessa fúria não contavam.

Mas ao fim de um tempo, ficaste cansado e acalmaste. Ficaste mansinho, arrulhaste e tal como um espelho, reflectiste as brancas nuvens que te passavam por cima, e o sol que espreitava e que nas tuas plácidas águas dardejava.

Sabes uma coisa? Consegues ser grandioso das duas maneiras.

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento que nos quer a escrever a todos, e desta vez sobre quadros.                             Até para a semana!

 

03.09.21

Quero escrever...


imsilva

Quero escrever uma carta, uma nota, um decreto, um recado, um simples bilhete.

Qualquer coisa que me diga algo a mim, que signifique que estou aqui, existindo através das palavras, através de emoções, pensamentos e desejos gravados num papel.

Que diga algo a alguém, que ajude, que alente, que marque a sua vida com palavras amigas capazes de fazer a diferença.

Quero escrever...qualquer coisa. 

 

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