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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

28.12.21

O velho , de Eugénio de Andrade


imsilva

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O inverno

Velho, velho, velho.
Chegou o inverno.

Vem de sobretudo
vem de cachecol
o chão onde passa
parece um lençol.

Esqueceu as luvas
perto do fogão
quando as procurou
roubara-as um cão.

Com medo do frio,
encosta-se a nós:
dai-lhe café quente
senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o inverno.

Eugenio de Andrade. Aquela nuvem e outras.

17.09.21

Tardes de Setembro - Eugénio de Andrade


imsilva

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Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
Meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade 
In "As Mãos e os Frutos"