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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

Outubro 23, 2020

imsilva

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Arrastava-a atrás de si como se pesasse o mesmo que as suas agruras, que os seus anos. Não havia nada a fazer, as duas andavam sempre juntas, porque era dele. A almofada era do marido que já não estava há 14 anos. Só conseguia dormir com aquela, quando não a tinha, ficava mal disposto e exigia que a mulher a encontrasse, mesmo que não estivesse bem seca, depois de uma lavagem à pressa, ela chegou a secá-la com o secador. E apesar de ela agora, já não ter memória, algo mais forte fazia com que não a largasse.

A filha, pacientemente, esperava por dias menos maus, para poder levar a almofada e lavá-la à socapa. A mãe, em dias menos maus, tornava-se mais maleável e mais compreensiva aos pedidos da filha, tornava-se menos ansiosa.

Muitas lágrimas eram choradas às escondidas. A filha porque sofria ao ver a decadência da mulher que com garra e muito esforço tinha levado aquela família em frente, contra tudo e contra todos, mesmo contra um marido sem sensibilidade e isento de compaixão, cego perante a riqueza que tinha e não merecia, uma familia bem formada e com valores maiores. A mãe, quando nos dias menos maus, e sempre momentaneamente, se apercebia do seu estado e da movimentação à sua volta. Aquela não era a casa de que se lembrava e aqueles não eram os seus filhos pequenos, que sempre necessitavam da sua atenção.

Entretanto, decide ir ver as flores ao quintal, e lá vai a arrastar os pés, com a  almofada dele no seu encalço.

 

Texto no âmbito do desafio da Mula e da Mel

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