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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

28.03.22

Annus horribilis


imsilva

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Este ano tem sido horrível! Como se os outros já não tivesssem sido assim apelidados...

Desde uma operação à hernia ao meu marido, à visita do vírus COVID à maior parte da família, a uma guerra estúpida a dois passos daqui, ao internamento da minha mãe que esteve sem visitas 2 semanas (agora já tem), à morte de 2 pessoas que de algum modo estão ligadas à nossa vida, têm sido quase 3 meses de angustia e atribulações como não me lembro noutro ano. 

Nos anos COVID, era só com o que nos tinhamos de preocupar, agora são 58 coisas ao mesmo tempo, que me deixam sem saber para onde dirigir o meu olhar.

Posso parecer pobre e mal agradecida mas tenho-me sentido sem chão muitas vezes. A única coisa que queria muito, muito fazer, uma coisinha pequena, pequenina, tão pequenina que ...desapareceu, era sair 3 dias, perder a chaminé de vista, respirar fundo noutros ares, num cantinho qualquer deste Portugal tão bonito e que está à minha espera. Mas, até isso me foi vedado.

A esperança é a última a morrer, e de esperança tenho vivido nestes últimos dias à espera de uma aberturazinha que permita a fuga. Uma singela fuga que não magoa ninguém, até pelo contrário, não me deixem fugir e verão se não vão aparecer por aí coxos e marrecos depois de lhes ter tratado do pelo.

Como se pode chamar horrível a este ano depois de termos passado pelos outros dois? Mas, eu chamo, chamo sim, e com todas as letras, H-O-R-R-Í-V-E-L!

Quantos meses faltam para o fim de 2022???

18.03.22

Destroços e emoções


imsilva

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Vladislav lembrava-se daquele teatro numa ocasião em que, era ele de palmo e meio, fora com o avô ver uma peça "Pedro e o lobo" de Prokofiev. Talvez fosse daí que tivesse nascido a sua paixão pela música.

Hoje era um jovem pianista que começava a ser conhecido na cidade de Kiev, e falado em toda a Ucrânia. Mas, não tinha tido oportunidade de tocar lá, e agora já não o poderia fazer.

Agora só tinha as memórias das belas melodias lá ouvidas ao lado de um avô que também já não estava.

Os seus olhos percorreram as paredes que restavam e sentiu um aperto no peito. Destroem-se casas de cultura como se de um baralho de cartas se tratasse, e não são essas só, são as outras também, as casas que fazem parte da vida do povo, da vida das aldeias, cidades, as casas onde se ensina, as casas onde se tratam os doentes, as casas onde se procura o conforto da fé, as casas de uma sociedade completa.

Haverá alguma desculpa, alguma razão, algum motivo que justifique a destruição dos meios de sobrevivência do ser humano, e do próprio do ser humano que não fez nada para isso merecer?

Vladislav afastou-se acabrunhado, com os olhos postos no chão, envergonhado, não queria ver mais atrocidades cometidas por aqueles que ele pensava serem seus semelhantes.

07.03.22

Palavras de Ondjaki


imsilva

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" - Achas que pode caber o quê, no coração das pessoas?
- Muitas coisas. Um poema, uma recordação, um cheiro de infância, um 'desejo de estrelas'...
- Como é um 'desejo de estrelas'?
- É olhar para uma estrela e desejar uma coisa.
- Ainda lá deseja uma coisa para eu ouvir.
- Desejo que o meu pai não tivesse morrido na guerra.
- E eu desejo que os homens nunca mais inventem guerras novas.
- Como se o saco das guerras estivesse vazio?
- Como se tivessem perdido o saco das guerras."

Ondjaki. In. Uma Escuridão Bonita
Ilustração de Maria Keil

28.02.22

Vidas em guerra (ou em suspenso)


imsilva

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Como é que se deixa, larga, abandona uma casa em caso de guerra?

O que é que se leva? O que é que se deixa? Fechamos a porta à chave e guarda-mo-la no bolso à espera de voltarmos e a encontrarmos como a deixamos?

Passaram-me estas interrogações pela cabeça e pareceram-me muito ridículas. Mas há milhares de pessoas a fazê-lo presentemente, assim como foi feito durante muitos momentos da história da humanidade.

Como é que se faz isso? Põe-se meia dúzia de roupas numa mala, alguns documentos, uns trocos existentes numa gaveta, o cordão de ouro que pertenceu à nossa mãe ou os brincos que o marido nos ofereceu naquele aniversário e o resto é história?

Largamos as nossas coisas, as nossas mobílias que guardam os nossos pratos, os nossos copos, a cama onde à noite podíamos descansar depois de um dia de labuta, longe de imaginar que um dia não nos deixariam lá dormir? 

Será que deixaríamos as gavetas que guardam as nossa vidas e as nossas recordações abertas ou fechadas?. A nossa "sorte" é que as nossas memórias e vivências podem ir connosco, mas deixamos as estantes repletas com os livros que nos acompanharam, fiéis companheiros de momentos que acreditamos que eram felizes e que não podemos levar porque são muito pesados. Mesmo assim, creio que alguém terá a coragem de levar um ou dois à socapa, como conforto, como outros levarão um terço ou algo que os possa ajudar a recordar que são humanos, que não fizeram mal a ninguém e que não mereciam esta odisseia.

Regressarão? Como será o regresso, estará lá a sua casa à espera que a chave dê a volta na fechadura, abra a porta e tudo esteja bem? O que será isso de regressar e tudo estar bem? E se regressarem e nada estiver bem...?

Não referi as crianças neste texto. Nem quero...

25.02.22

Palavras de Nelson Mandela, e minhas.


imsilva

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"Devemos promover a coragem onde há medo, promover a paz onde há conflito e a esperança onde há desespero.»

Nelson Mandela

 

O que se pode dizer num momento destes? Que deviam arranjar uma boa equipa de psicólogos, psiquiatras e tratar estas cabeças pensantes que não sabemos como pensam e como funcionam?

Aceitam-se voluntários para tal empreitada. Boa sorte!