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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

07.10.22

A idade de Mia


imsilva

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“Afinal, o que é a idade?
Quando eu era jovem uma pessoa de 50 anos era velha. E era realmente, na sua postura, no seu olhar. Eu tenho 60 e apenas em certos momentos percebo que me pesa a idade. Essa reinvenção da velhice está a suceder e não é tanto pelos cosméticos, pela profusão altamente rentável de produtos antienvelhecimento. É por uma atitude interior, uma vitalidade que se alcança pela capacidade de fazer amigos, de amar e ser amado e de ser dono do sentido de tempo.”

Mia Couto

29.06.22

Quando os velhos se tornam invisíveis


imsilva

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Um texto tocante de autor desconhecido.

"QUANDO ME TORNEI INVISÍVEL"

"Já não sei em que datas estamos, nesta casa não há calendários e na minha memória tudo está revolto. As coisas antigas foram desaparecendo.E eu também fui apagando sem que ninguém se desse conta.

Quando a família cresceu, trocaram-me de quarto. Depois, passaram-me para outro menor ainda acompanhada das minhas netas, agora ocupo o anexo, no quintal de trás.

Prometeram-me mudar o vidro partido da janela, mas esqueceram-se. E nas noites, que por ali sopra um ventinho gelado aumentam mais as minhas dores reumáticas.

Um dia à tarde dei conta que a minha voz desapareceu. Quando falo, os meus filhos e netos não me respondem. Conversam sem olhar para mim, como se eu não estivesse com eles. Ás vezes digo algo, acreditando que apreciarão os meus conselhos, mas, não me olham, nem me respondem, então retiro-me para o meu canto, antes de terminar a caneca de café. Faço isso para que compreendam que estou triste e para que me venham procurar e me peçam perdão.
Mas ninguém vem.

No dia seguinte disse lhes:

Quando eu morrer, então sim vocês irão sentir a minha falta.
E meu neto perguntou:
- Estás viva vó? (rindo)

Estive três dias a chorar no meu quarto, até que numa certa manhã, um dos netos entrou para guardar umas coisas velhas. Nem bom dia me deu , foi então que me convenci de que sou invisível.

Uma vez os netos vieram dizer-me que iriamos passear no campo. Fiquei muito feliz, fazia tanto tempo que não saía!
Fui a primeira a levantar, quis arrumar as coisas com calma, afinal nós velhos somos mais lentos, assim arranjei-me a tempo de não atrasá-los. Em pouco tempo, todos entravam e saíam correndo da casa, atirando bolas e brinquedos para o carro. Eu já estava pronta e muito alegre, parei na porta e fiquei à espera. Quando se foram embora, compreendi que eu não estava convidada, talvez porque não cabia no carro.

Senti que o coração encolhia e o queixo tremia, como alguém que tinha vontade de chorar. Eu os entendo, são jovens, riem, sonham, se abraçam, se beijam, mas e eu e eu....

Antes beijava os meus netos, adorava tê-los nos braços, como se fossem meus. E até cantava canções de embalar que tinha esquecido.

Mas um dia...

Um dia a minha neta que acabava de ter um bebê me disse que não era bom que os velhos beijassem os bebês por questões de saúde. Desde então, não me aproximo mais deles, tenho tanto medo de contagia-los!

Eu não tenho magoa deles , eu perdoo a todos, porque que culpa têm eles, de que eu tenha me tornado invisível.

D A

12.11.21

Idade, Anos, Vida


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 Quando acumulamos idade, anos, vida, sentimos o peso das vivências, da aprendizagem que fizemos ao longo do caminho, a montanha russa de sentimentos de que nunca mais descemos.

Até o olhar se modifica, passamos a olhar com mais condescendência, com mais compreensão, com muito mais paciência.

Aprendemos a não dar tantas opiniões, algo que fazíamos mais a miude, e aprendemos a respeitar o que os mais novos julgam que sabem, dando-lhes espaço para perceberem que nós já passamos por isso e já sabemos mais qualquer coisa.

Se pararmos para pensar um pouco no assunto, só nos podemos orgulhar do percurso feito. Já passaram esses anos todos? Como é que eu cheguei até aqui? Mas...eu sinto-me ainda uma adolescente à espera de mais alguma coisa!

A eterna insatisfação do ser humano, queremos sempre mais, apesar de não sabermos o quê. Mas se pararmos a olhar a nossa história, vemos muito mais, vemos experiências que hoje nem sabemos como passamos por elas, vemos que aquilo que hoje somos só pode ser graças ao que ficou para trás, mas que se encontra escondido num canto do nosso ser.

A idade, os anos, a vida, uma oferta preciosa que convêm aproveitar da melhor maneira possível.

29.06.21

Velhos ao sol - Maria do Rosário Pedreira


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MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será - porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes - por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa -

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.


Poster: Endless love, © Susan Delain

 

04.12.20

Pensamentos em palavras


imsilva

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Tenho saudades de escrever.

Têm-me faltado as palavras, por isso tenho recorrido às "palavras dos outros". Não que não sejam boas, mas eu gosto de pôr as "minhas palavras" e partilhá-las mas, não têm saído.

Tudo à minha volta (como à volta de muitos) tem andado muito cinzento, e cinzento só gosto do tempo em alguns dias de Inverno, em que ficamos dentro de portas, no quentinho, confortáveis no nosso sofá, com a nossa mantinha, a nossa caneca de chá e um livro, senão também pode ser um filme com drama amoroso suficiente para nos aquecer o coração.

Mas o cinzento que eu vejo à minha volta, é a falta de saúde da minha colecção de velharias (pais e sogra), para além do balancé em que o trabalho está, com o abre agora, fecha depois e paga as contas na mesma.

Enfim, creio que para o 2º motivo só resta esperar por melhores dias e ter esperança num futuro próximo.

Quanto ao 1º motivo, é mais complicado, porque ninguém rejuvenesce, todos envelhecemos e os anos passam inexoravelmente.

Está a ser uma época de preocupações. Já tinha escrito sobre como seria quando os meus velhos deixassem de ser tão independentes e viessem a precisar da nossa presença assídua e cuidados.

É o que está a acontecer, apesar de ainda serem minimamente autónomos, sentimos que a nossa presença tem de ser diária. O estado anímico está em baixo, estão a sentir-se "velhos" e não estão a aceitar este novo viver. Ainda por cima parecem um baralho de cartas, a desmoronar uns a seguir aos outros.

Não vou falar de como é ter um trabalho e ter estas preocupações em cima porque creio que todos sabem qualquer coisa sobre isso.

E quando formos nós...?

Quem diria que ia sair um texto deste tamanho, quando dizia eu que me faltavam as palavras?

Apesar de que eu creio que isto são mais pensamentos do que palavras.

 

12.05.20

Mulher madura, beleza pura


imsilva

 

 

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Aviso: Este texto é dedicado às maduras, mas creio que também pode dizer algo às verdes.

No domingo, na RTP2, vi o 1° episódio de uma nova série, "O oportunista". Que me trouxe esta certeza, as mulheres maduras tem um charme incrível. A protagonista é Júlia Ormond, (Lendas de paixão, com Brad Pitt) (Sabrina, com Harrison Ford) e depois de me assustar por perceber que ela também envelheceu, (não somos só nós) percebi também que está linda.

Foi há coisa de um ano que lancei o "desafio dos 50", e que deu testemunhos fantásticos do que é chegar aos 50, e das vantagens que sentimos na alma e no ego. Foi unânime, todas nos sentimos orgulhosas e de bem com a idade.

As rugas e as curvas, tiraram algo a esta actriz, mas também lhe deram outra coisa, beleza madura e aquela sensação de serenidade e auto-confiança, de quem já não deve nada a ninguem e satisfações muito menos.

Ok. Já percebi que provavelmente vai ser enrolada na série, mas isso nada tem a ver com a beleza e o carisma que transmite.