Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

20.10.21

Desafio "Arte e inspiração" #6

Diferentes infâncias


imsilva

22177520_0QZNs.jpeg.jpg

                                                           O sobreiro - Rei D. Carlos de Bragança 

O avô contava ao neto as vezes que tinha esfolado as pernas a trepar àquela árvore. Até lhe contou, à laia de segredo, que era por isso que ela estava vergada e ela própria esfolada também. Era da quantidade de vezes que os miúdos subiam para os seus ramos. Mas, que tinha a certeza que também estava vergada pela tristeza que sentia por já não haver crianças que a quisessem trepar. Sentia, com toda a certeza, falta do calor dos seus braços e pernas, dos seus gritos de entusiasmo quando conseguiam chegar lá acima.

O avô perguntou ao neto se queria experimentar, o neto olhou para os ramos da árvore e não se sentiu muito seguro de que seria uma coisa correcta, nem era algo que  alguma vez tivesse feito ou que desejasse fazer, olhou para as suas calças e pensou no que a sua mãe diria se as esfolasse, para além da ansiedade que a ideia lhe provocava.

O avô, adivinhando os pensamentos do neto, teve pena das crianças que nunca saberiam o que era a liberdade de subir a uma árvore, e de esfolar um joelho que arderia como tudo, mas que daria tanto prestígio. Não tendo coragem de desafiar o neto para tal experiência,  mais por medo dos pais do que por outra coisa, deu a mão ao neto e voltando as costas ao secular sobreiro, continuaram o passeio pela bela e calma paisagem de uma pacata aldeia, tão longe e tão perto da buliçosa cidade onde as crianças não trepavam às árvores. 

 

Texto no âmbito do desafio da Fátima Bento

25.04.21

25 de Abril por José Fanha


imsilva

FB_IMG_1619261637535.jpg

" O grande símbolo do 25 de abril, é o cravo. E que melhor símbolo para uma revolução pacífica do que esta linda flor que, ainda por cima, é vermelha e verde, as cores da bandeira nacional? O que talvez nem toda a gente saiba é a origem dos cravos colocados no cano das armas dos soldados que fizeram o 25 de abril.
A história é bonita e simples:
Uma senhora trabalhava numa empresa que ia comemorar um ano de atividade no dia 25 de abril. Tinham-na mandado comprar muitos cravos para a festa de aniversário. Nesse mesmo dia, pela manhã, quando a senhora chegou à empresa, já a revolução estava na rua e os patrões disseram-lhe para levar os cravos, pois, se ficassem ali, murchavam.
A senhora trouxe consigo um grande molho de cravos e, quando encontrou os chaimites a subir para o Carmo, perguntou a um soldado:
- Vocês estão aqui a fazer o quê?
Eles explicaram que iam prender o Marcelo Caetano.
E um soldado perguntou:
- A senhora, não tem um cigarrinho?
- Não tenho cigarros, mas tenho cravos - disse a senhora.
E foi dando os cravos aos soldados, que os puseram nos canos das armas. Depois, disso, muitos cravos apareceram.
Muita gente foi buscar cravos e os soldados ficavam todos felizes por trazerem o sinal de alegria na lapela. E no cano das armas. "

José Fanha. Era uma vez o 25 de abril.
Abigail Ascenso - ilustração 

05.02.21

Não é egoísmo, é opção


imsilva

20210117_115638.jpg

 

Num filme alguém perguntava a outro se tinha filhos. A pessoa respondeu que não, que era demasiado egoísta para isso. O primeiro disse que ter filhos era um acto muito mais egoísta.

Não creio que algum dos dois tivesse razão, não creio que seja uma questão de egoísmo, mas sim de opção.

Tão feliz pode ser um como o outro. Terão vidas diferentes certamente, experiências que sendo igualmente enriquecedoras, não terão muito em comum.

Em tempos acreditei que ter filhos fazia parte, não como obrigação, mas por vocação. Era para mim difícil entender que alguém poderia não querer ter filhos. Hoje entendo que o mundo mudou, que filhos podem não fazer parte da equação.

Noutras gerações vivia-se para ter descendência, ou para ter mão de obra, ou para ter a quem deixar o espólio, curiosa a distância entre estes dois motivos.

Na minha experiência, desejei ter filhos desde que me lembro de ser gente. Imaginava um rancho deles, e empregadas para tratar da roupa, para limpar ranho, para por a chucha durante a noite. 

Tive três filhos, a terceira veio clandestina, creio que foi a minha vontade escondida, como disse o meu marido, e então entendi que a vida real não tem a ver com a imaginação, que não quereria outra pessoa a limpar ranho, a por a chucha durante a noite (quer dizer...) a apaziguá-los durante os pesadelos nocturnos, ou a dar-lhes um beijinho no dói dói que fizeram enquanto andavam desarvorados a correr, quando já tinha dito que não queria correrias.

Já falei destas coisas aqui, e também das dores quando crescem e ficam parvos aqui.

Mas hoje quero dar a mão à palmatória, e reconhecer que a vida pode passar por não ter filhos, por realizar tantas outras coisas, é só decidir quais os objectivos de vida, porque hoje acredito que há mais, muito mais, e que tudo é válido para ser feliz, é só encontrar o caminho para lá.

 

 

 

25.04.20

Homenageando a Liberdade


imsilva

f935f330955a32a1c6cbfba31cc5fd52.jpg

 

Foi em Abril que se conquistou a Liberdade.                                       Mas foi num outro Abril, há 46 anos atrás...                                        Conquistamos o direito à opinião, a capacidade de acção, o poder da decisão, e a permissão de dar voz ao pensamento.

Alguém cantou uma ode aos direitos adquiridos então, a paz, o pão, habitação, saúde, educação...é uma luta contínua porque nada disto é seguro se não se trabalhar sempre para isso.

Hoje, neste Abril, ganhamos o sentimento de uma falsa sensação de falta de Liberdade, porque sabemos que ela está lá.

 

01.04.20

E o mar...estava lá!


imsilva

20200331_165807.jpg

20200331_165934.jpg

20200331_170211.jpg

Ontem, depois da chuva da manhã, fui levar fruta aos meus pais. Depois fomos à Vila, e não resistimos a dar uma volta pela beira mar. É  tão triste vermos as entradas para as praias, e os bancos na marginal vedados com fitas para ninguém se sentar. É quase criminoso ser proibido usufruir do ar puro, do sol a bater na cara, de 30 minutos sentado a apreciar a vista. Eu compreendo que se toda a gente fosse fazer isso, já não faria sentido. Mas, ao fim de 17 dias sem essas vistas, demos uma volta pela nossa marginal, felizes por constatar que o mar...continua lá.