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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

30.03.21

As poesia de Maria do Rosário Pedreira


imsilva

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Óleo s/ tela, por © Erica Hopper

 

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES (Gótica Ed., 2001), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

 

Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite — 

e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e 

um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas 

que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos, 

e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras, 

nem das aves negras nos meus braços de mármore, 

nem de te ter perdido — não ter medo de nada. Pudesse 

 

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo — 

das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite; 

de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo 

deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida 

e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo

já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era 

tarde para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse 

 

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor, 

a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi — 

porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre 

o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam 

nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse 

 

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha 

dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer, 

mas ouço-te a respirar no meu poema.