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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

Fevereiro 07, 2024

imsilva

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" Filha, lembras-te do tempo em que eu passava tardes e tardes costurando?
- Lembro-me, mãe. Éramos tanto filhos, tantas roupas...
- A maior parte das vezes eu só fingia que costurava.
- Fingia? Fingia para quê?
- Os homens não gostam que as mulheres pensem em silêncio. Ficam desconfiados..
- Assim, enquanto eu costurava, o seu pai não suspeitava que eu pensava...
Os meus pensamentos viajavam por todo o lado...
Nesses escassos momentos, eu, Constança, era mulher sem ter que pedir licença, existindo sem ter que pedir perdão."

Mia Couto. In. O outro pé da sereia.

Junho 09, 2023

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Mexendo nuns papéis soltos, entre tantos outros numa pasta, encontrei umas frases que tinha retirado de textos de Mia Couto.

Muitas mais haveria a retirar, porque tudo o que escreve é poesia, mas deixo -vos estas para saborearem.

Estava ocupado, a servir-se de sombra.

Nessa noite, eu desconsegui de dormir. Saí, sentei a insónia no jardim de frente.

Nasci de ninguém, fui eu que me engravidei. Ainda sujo dos sangues que deixaram no mundo.

Meus olhos se encheram de muitas águas, todas que me faltaram em anteriores tristezas.

Escutava os ponteiros a pingar no tempo...

Bom fim de semana, sejam felizes!

Março 03, 2023

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(…) Sabe o que dava jeito? Era a gente os dois nos combinarmos, está a perceber, Dona Luarmina?
- Ajuíze-se, Zeca.
- Faz conta somos verbo e sujeito.
- Já conheço essa sua gramática…
- A senhora, minha boa Dona, nem sabe quanto enriquece minha retina.

Mia Couto, in 𝘔𝘢𝘳 𝘮𝘦 𝘲𝘶𝘦𝘳
Imagem de Dianne Dengel (Nova Iorque, 1939- )

Biblioteca Municipal de Beja - José Saramago

Outubro 07, 2022

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“Afinal, o que é a idade?
Quando eu era jovem uma pessoa de 50 anos era velha. E era realmente, na sua postura, no seu olhar. Eu tenho 60 e apenas em certos momentos percebo que me pesa a idade. Essa reinvenção da velhice está a suceder e não é tanto pelos cosméticos, pela profusão altamente rentável de produtos antienvelhecimento. É por uma atitude interior, uma vitalidade que se alcança pela capacidade de fazer amigos, de amar e ser amado e de ser dono do sentido de tempo.”

Mia Couto

Julho 19, 2021

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" O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mim.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então por que não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com os nossos medos."

Mia Couto, in 𝘖 𝘨𝘢𝘵𝘰 𝘦 𝘰 𝘦𝘴𝘤𝘶𝘳𝘰
Ilustr. Howard McWilliam

Julho 08, 2021

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Não viram? Então vejam! Foi no sábado à noite na RTP 1. Não é a 1° vez que me confesso admiradora da Filomena Cautela, e não será a última.

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Na RTP2,  na segunda-feira, um documentário com o singelo Mia Couto. Mais alguém que merece toda a minha admiração. 

Ponham lá a box a trabalhar, e aproveitem alguns dos poucos momentos bons televisivos.

Março 21, 2021

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A Demora
O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.


Mia Couto, in " idades cidades divindades"

Março 02, 2021

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A Casa

Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…
E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

Mia Couto, Tradutor de chuvas

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