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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

19.07.21

O escuro de Mia


imsilva

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" O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mim.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então por que não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com os nossos medos."

Mia Couto, in 𝘖 𝘨𝘢𝘵𝘰 𝘦 𝘰 𝘦𝘴𝘤𝘶𝘳𝘰
Ilustr. Howard McWilliam

08.07.21

Conselhos televisivos


imsilva

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Não viram? Então vejam! Foi no sábado à noite na RTP 1. Não é a 1° vez que me confesso admiradora da Filomena Cautela, e não será a última.

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Na RTP2,  na segunda-feira, um documentário com o singelo Mia Couto. Mais alguém que merece toda a minha admiração. 

Ponham lá a box a trabalhar, e aproveitem alguns dos poucos momentos bons televisivos.

21.03.21

Dia da poesia com Mia Couto


imsilva

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A Demora
O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.


Mia Couto, in " idades cidades divindades"

02.03.21

A casa de Mia Couto


imsilva

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A Casa

Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…
E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

Mia Couto, Tradutor de chuvas