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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

17.11.21

Sucata de Alice Vieira


imsilva

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Sucata

o que levam das nossas vidas
as coisas velhas que deitamos fora porque
as casas são pequenas e os objectos
envelhecem agora mais depressa
do que nós

nas velhas casas
os lençóis de linho e as arcas de cânfora
e os serviços de chá onde se via
uma chinesa no fundo das chávenas
que um tio avô
tinha trazido de Cantão
sobreviviam sempre a todos os mortos
e passavam de cama para cama
e de sala para sala
e de mesa para mesa
e eram sempre os mesmos
e nós tão outros

mas agora tudo é feito
para morrer depressa e
sem deixar mágoa nem vestígio

e que fazem dentro das nossas vidas
gravadores de fita máquinas de escrever
cassettes onde aprisionámos
histórias momentos e rostos
que julgávamos eternos
e que pensávamos rever
a vida inteira

--o senhor da sucata estava feliz
agradeceu muitas vezes
enquanto amontoava tudo
deixando a minha casa
subitamente maior

(ou muito mais pequena
conforme o ponto de vista)"

Alice Vieira, Olha-me Como Quem Chove.

22.10.21

Mais de Fernando Pessoa


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Loura e face que esfria
Cose, dobrada, à janela.
Se eu fosse outro pararia
E falaria com ela.

Mas seja o tempo ou o acaso
Seja a sorte interior,
Olho mas não faço caso
Ou não faz caso o amor.

Mas não me sai da memória
A janela e ela, e eu
Que se fora outro na história
Mas o outro nunca nasceu...

 

Fernando Pessoa

In Poesia 1931-1935 

Imagem: Momentary Glance by Morgan Weistling

17.09.21

Tardes de Setembro - Eugénio de Andrade


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Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de Setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
Meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.

Eugénio de Andrade 
In "As Mãos e os Frutos"

10.09.21

Múrmurios


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Os múrmurios são tantos, surgindo de poços sem fundo

As vozes incomodas e sujas como as almas suspensas

O calor alaga os poros e os pensamentos derretem em líquido viscoso

Os movimentos são autónomos e incompreensíveis

O chão que pisamos vai e vem e por vezes desaparece, assustando-nos

O que somos? o que parecemos? o que será que queremos ser?

E é quando os múrmurios gritam e se exaltam

que realmente começamos a ouvir

Nós não somos, nós não parecemos

nós só queríamos ser...

08.09.21

O meu pai - Vinicius


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Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra
Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas
Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência
E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste.

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas
Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias
Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.

Vinicius de Moraes. Meu Pai
Pintura, VAN GOGH

01.09.21

O menino (Fernado Pessoa)


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O meu menino não dorme.
Não sei como dormirá.
Lá fora a noite é enorme
E não há lua, não há…

Meu menino chora, chora,
Não tem sossego consigo
Voltei-o p’ra mim agora,
Mas não dorme, não consigo…

Já cantei quanto se canta…
Já lhe falei do papão…
Já lhe disse como encanta
A fada que tem condão…

Mas ele não dorme; vejo
Sempre os seus olhos abertos…
Dou-lhe um beijo e outro beijo
E estende os braços despertos…

Dorme, meu menino, dorme
Que a mãezinha vai dormir!
Lá fora a noite é enorme…
Dorme, meu menino, dorme
Que já te vejo a sorrir

 

Fernando Pessoa

In Poesia 1931-1935  , Assírio & Alvim

Imagem: Arthur John Elsley

18.08.21

A noite de Rosa Lobato de Faria


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ROSA LOBATO DE FARIA, in A NOITE INTEIRA JÁ NÃO CHEGA - Poesia - 1983-2010 (Guimarães Editora, 2012)

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.

*
Fotografia ©Elsa Estrela
*

(LT)

13.08.21

As meninas de Cecília


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As Meninas.


Arabela
abria a janela.
Carolina
erguia a cortina.
E Maria
olhava e sorria:
"Bom dia!"
Arabela
foi sempre a mais bela.
Carolina
a mais sábia menina.
E Maria
Apenas sorria:
"Bom dia!"
Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.
Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom dia!"

(Cecília Meireles---)

28.07.21

Diz-me avô...


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Nino Chakvetadze

 

DIZ O AVÔ

Tens cabelos brancos.
Mas porquê, avô?
Caiu muita neve
na estrada onde vou.

Tens rugas na face.
Mas porquê, avô?
Bateu muito sol
na estrada onde vou.

Tens olhos baços.
Mas porquê, avô?
Pousou nevoeiro
na estrada onde vou.

Tens calos nas mãos.
Mas porquê, avô?
Parti muita pedra
na estrada onde vou.

Tens coração grande.
Mas porquê, avô?
Nele mora a gente
que por mim passou.


LUÍSA DUCLA SOARES, in A CAVALO NO TEMPO