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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

05.10.22

Desafio "Arte e inspiração" V2 #4

Dama em fuga


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                                                                A Dama de Shalott / The Lady off Shalott

                                                                                         de Jonh William Waterhouse

A surpresa da infelicidade

quando a mente a evoca

e de braços abertos, a liberta

É uma dama que por amor

no seu coração oprimido

o senso perdeu

e tresloucada partiu

em busca de nada

em busca de tudo

em busca do que deixou

no seu infinito e deslocado eu...

 

Participação no desafio da Fátima Bento

14.09.22

Desafio "Arte e inspiração" V2 #1

A persistência da memória ou O dia em que o tempo findou


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Espero e desespero

Espero por tempos que tragam tempo

Tempo para amar

Tempo para viver

E pergunto por onde andará o tempo...

Desespero por esse tempo

Que tarda em chegar

Que não sei se chegará a tempo

De me acalmar

Abri a janela da vida, e nada vi

Acabei por entender

Não havia tempo

Era o dia em que o tempo findou

 

A minha participação nesta reedição do desafio da Fátima Bento 

 

 

 

 

 

19.08.22

Tempo de travessia - Fernando Pessoa


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"Há um tempo em que é preciso

abandonar as roupas usadas

Que já tem a forma do nosso corpo

E esquecer os nossos amigos que

nos levam sempre aos mesmos lugares

É o tempo da travessia

E se não ousarmos fazê-la

Teremos ficado para sempre

à margem de nós mesmos."

                                                                                     Fernando Pessoa

 

Só para vos desejar um belo fim-de-semana! 

22.07.22

Lar de Rosa Lobato Faria


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ROSA LOBATO FARIA, in O SÉTIMO VÉU (2003; Ed. ASA, 2017)

Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.



 

11.07.22

Os amantes


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MARIA JOÃO CANTINHO, in SÍLABAS DE ÁGUA (Ed. Ver o Verso, 2005)

OS AMANTES

Poderiam ter deixado tudo para trás de si
e tomar o último comboio da noite,
como anjos de Chagall,
que não conhecem senão a dança do amor.

Teriam, então, deslizado pelas sombras,
como figuras luminosas,
que se desenhavam no hálito da madrugada,
os corpos fundidos nos versos
que escreviam no coração um do outro.

Teriam sido felizes, deitados sobre a terra,
a olhar o céu, onde deslizavam animais feitos de algodão,
teriam esquecido os nomes um do outro,
para reaprender o apelo da água
e do sangue, o apelo da voz universal,
o canto derradeiro que os sonhava.

Era preciso ter esquecido tudo
O lugar onde se nasce,
a casa onde sempre se retorna,
era preciso ter esquecido tudo,
para reaprender esse enigma,
que se escrevia na flor do silêncio.

Poderiam ter esquecido tudo, para trás de si
e tomado o último comboio do tempo.


Óleo s/ tela : Deux Têtes À La Fenêtre, de Marc Chagall

 

06.05.22

Teimosamente


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Lágrimas teimosas rolam,

escorrem pelos cantos que a alma deixa a descoberto

e livres, vão passeando por aqui, por ali e por acolá

envolvendo um coração dorido

deixando um rasto, também teimoso, de tristezas e ânsias

Não encontram caminho a direito

por isso vão ziguezagueando e teimosamente demorando

Se encontrassem o caminho certo

talvez já tivessem levado as dores e as lástimas

talvez já tivessem desertado para algum outro sítio

libertando assim as teimosas angustias do meu coração

por onde a tua imagem passeia

29.03.22

O Amor de Gedeão


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POEMA DO AMOR

Este é o poema do amor.
.
Do amor tal qual se fala, do amor sem mestre.
Do amor.
Do amor.
Do amor.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das fachadas dos prédios e dos recipientes do lixo.
Do amor das galinhas, dos gatos e dos cães, e de toda a espécie de bicho.
Do amor.
Do amor.
Do amor.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das soleiras das portas
e das varandas que estão por cima dos números das portas,
com begónias e avencas plantadas em tachos e em terrinas.
Do amor das janelas sem cortinas
ou de cortinas sujas e tortas.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor das pedras brancas do passeio
com pedrinhas pretas a enfeitá-lo para os olhos se entreterem,
e as ervas teimosas a descerem de permeio
e os homens de cócoras a raparem-nas e elas por outro lado a crescerem.
Do amor das cadeiras cá fora em redor das mesas
com as chávenas de café em cima e o toldo de riscas encarnadas.
Do amor das lojas abertas, com muitos fregueses e freguesas
a entrarem e a saírem e as pessoas todas muito malcriadas.
.
Este é o poema do amor.
.
Do amor do sol e do luar,
do frio e do calor,
das árvores e do mar,
da brisa e da tormenta,
da chuva violenta,
da luz e da cor.
Do amor do ar que circula
e varre os caminhos
e faz remoinhos
e bate no rosto e fere e estimula.
Do amor de ser distraído e pisar as pessoas graves,
do amor sem amar nem lei nem compromisso,
do amor de olhar de lado como fazem as aves,
do amor de ir, e voltar, e tornar a ir, e ninguém ter nada com isso.
Do amor de tudo quanto é livre, de tudo quanto mexe e esbraceja,
que salta, que voa, que vibra e lateja.
Das fitas ao vento,
dos barcos pintados,
das frutas, dos cromos, das caixas de tinta, dos supermercados.
.
Este é o poema do amor.
.
O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.

Este é o poema do amor.

ANTÓNIO GEDEÃO, in OBRA COMPLETA (Relógio D'Água, 2004)