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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

05.08.22

O peso da vida


imsilva

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A vida pode pesar toneladas, ao ponto de ser difícil dar passos, ao ponto de andarmos curvados, ou pode pesar como uma pena, ao ponto de andarmos a levitar, sem quase tocarmos no chão.

Creio que os adultos sentem mais a 1º versão do que a 2º. Quando vejo crianças a berrar por caprichos, sem razão alguma válida, penso sempre, "espera mais um pouco, cresce, e depois falamos".

Usualmente, andamos com os pezinhos no chão, sentimos as pedras do caminho, e se houver alguma fora do sítio, tropeçamos, correndo o risco de bater com os bonitos narizes no dito cujo (chão).

No entretanto, compramos bons ténis (não me atrevo a andar de sapatinho) e vamos caminhando, procurando um terreno mais liso, menos acidentado, na esperança de chegarmos ao outro lado com os menores danos possíveis.

Talvez seja melhor aproveitarmos os momentos menos arriscados para olharmos a paisagem, para respirarmos fundo, para deixarmos o peso por um bocadinho no chão e fazermos uns pezinhos de dança para aliviarmos a viagem.

Assim ou assado, com mais ou menos dificuldade, ultrapassemos e caminhemos...da melhor maneira possível.

22.07.22

Lar de Rosa Lobato Faria


imsilva

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ROSA LOBATO FARIA, in O SÉTIMO VÉU (2003; Ed. ASA, 2017)

Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.



 

18.03.22

Destroços e emoções


imsilva

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Vladislav lembrava-se daquele teatro numa ocasião em que, era ele de palmo e meio, fora com o avô ver uma peça "Pedro e o lobo" de Prokofiev. Talvez fosse daí que tivesse nascido a sua paixão pela música.

Hoje era um jovem pianista que começava a ser conhecido na cidade de Kiev, e falado em toda a Ucrânia. Mas, não tinha tido oportunidade de tocar lá, e agora já não o poderia fazer.

Agora só tinha as memórias das belas melodias lá ouvidas ao lado de um avô que também já não estava.

Os seus olhos percorreram as paredes que restavam e sentiu um aperto no peito. Destroem-se casas de cultura como se de um baralho de cartas se tratasse, e não são essas só, são as outras também, as casas que fazem parte da vida do povo, da vida das aldeias, cidades, as casas onde se ensina, as casas onde se tratam os doentes, as casas onde se procura o conforto da fé, as casas de uma sociedade completa.

Haverá alguma desculpa, alguma razão, algum motivo que justifique a destruição dos meios de sobrevivência do ser humano, e do próprio do ser humano que não fez nada para isso merecer?

Vladislav afastou-se acabrunhado, com os olhos postos no chão, envergonhado, não queria ver mais atrocidades cometidas por aqueles que ele pensava serem seus semelhantes.

04.03.22

Sabedoria infantil dos tempos actuais


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O meu pai faz barcos pequenos em madeira à imagem dos reais das nossas praias. Teve COVID na semana passada, e como, felizmente estava bem, foi para a sua oficina trabalhar nos seus barquinhos.

Conselho do meu neto mais novo (5 anos) numa chamada em que soube o que o bisavô estava a fazer; - Avô, não podes estar a mexer nos barcos, porque depois vais oferecê-los às pessoas e pegas-lhes o COVID!

28.01.22

Esperança, resiliência...e vida


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Quando descobri esta florzinha escondida numa planta que parece estar a desfalecer, fiquei a olhar espantada para a sua pequenez e resiliência. Aquela que tantas vezes nos falta.

 Fez-me pensar em nós, seres humanos na luta pelo dito lugar ao sol, empurrados pelos sonhos que criamos na esperança de sermos agraciados.

E no entretanto...

A vida faz-se, ou tenta-se com melhores ou piores resultados, mas vai-se fazendo.

E enquanto acontece, passos são dados, emoções são sentidas, decisões são tomadas.

Alegria e tristeza vão marcando presença, a felicidade vai espreitando num jogo de escondidas, e nós vamos crescendo em direcção a algo não muito claro, mas que nos preparamos para enfrentar com determinação e coragem, como esta florzinha.