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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

29.06.22

Quando os velhos se tornam invisíveis


imsilva

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Um texto tocante de autor desconhecido.

"QUANDO ME TORNEI INVISÍVEL"

"Já não sei em que datas estamos, nesta casa não há calendários e na minha memória tudo está revolto. As coisas antigas foram desaparecendo.E eu também fui apagando sem que ninguém se desse conta.

Quando a família cresceu, trocaram-me de quarto. Depois, passaram-me para outro menor ainda acompanhada das minhas netas, agora ocupo o anexo, no quintal de trás.

Prometeram-me mudar o vidro partido da janela, mas esqueceram-se. E nas noites, que por ali sopra um ventinho gelado aumentam mais as minhas dores reumáticas.

Um dia à tarde dei conta que a minha voz desapareceu. Quando falo, os meus filhos e netos não me respondem. Conversam sem olhar para mim, como se eu não estivesse com eles. Ás vezes digo algo, acreditando que apreciarão os meus conselhos, mas, não me olham, nem me respondem, então retiro-me para o meu canto, antes de terminar a caneca de café. Faço isso para que compreendam que estou triste e para que me venham procurar e me peçam perdão.
Mas ninguém vem.

No dia seguinte disse lhes:

Quando eu morrer, então sim vocês irão sentir a minha falta.
E meu neto perguntou:
- Estás viva vó? (rindo)

Estive três dias a chorar no meu quarto, até que numa certa manhã, um dos netos entrou para guardar umas coisas velhas. Nem bom dia me deu , foi então que me convenci de que sou invisível.

Uma vez os netos vieram dizer-me que iriamos passear no campo. Fiquei muito feliz, fazia tanto tempo que não saía!
Fui a primeira a levantar, quis arrumar as coisas com calma, afinal nós velhos somos mais lentos, assim arranjei-me a tempo de não atrasá-los. Em pouco tempo, todos entravam e saíam correndo da casa, atirando bolas e brinquedos para o carro. Eu já estava pronta e muito alegre, parei na porta e fiquei à espera. Quando se foram embora, compreendi que eu não estava convidada, talvez porque não cabia no carro.

Senti que o coração encolhia e o queixo tremia, como alguém que tinha vontade de chorar. Eu os entendo, são jovens, riem, sonham, se abraçam, se beijam, mas e eu e eu....

Antes beijava os meus netos, adorava tê-los nos braços, como se fossem meus. E até cantava canções de embalar que tinha esquecido.

Mas um dia...

Um dia a minha neta que acabava de ter um bebê me disse que não era bom que os velhos beijassem os bebês por questões de saúde. Desde então, não me aproximo mais deles, tenho tanto medo de contagia-los!

Eu não tenho magoa deles , eu perdoo a todos, porque que culpa têm eles, de que eu tenha me tornado invisível.

D A

28.02.22

Vidas em guerra (ou em suspenso)


imsilva

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Como é que se deixa, larga, abandona uma casa em caso de guerra?

O que é que se leva? O que é que se deixa? Fechamos a porta à chave e guarda-mo-la no bolso à espera de voltarmos e a encontrarmos como a deixamos?

Passaram-me estas interrogações pela cabeça e pareceram-me muito ridículas. Mas há milhares de pessoas a fazê-lo presentemente, assim como foi feito durante muitos momentos da história da humanidade.

Como é que se faz isso? Põe-se meia dúzia de roupas numa mala, alguns documentos, uns trocos existentes numa gaveta, o cordão de ouro que pertenceu à nossa mãe ou os brincos que o marido nos ofereceu naquele aniversário e o resto é história?

Largamos as nossas coisas, as nossas mobílias que guardam os nossos pratos, os nossos copos, a cama onde à noite podíamos descansar depois de um dia de labuta, longe de imaginar que um dia não nos deixariam lá dormir? 

Será que deixaríamos as gavetas que guardam as nossa vidas e as nossas recordações abertas ou fechadas?. A nossa "sorte" é que as nossas memórias e vivências podem ir connosco, mas deixamos as estantes repletas com os livros que nos acompanharam, fiéis companheiros de momentos que acreditamos que eram felizes e que não podemos levar porque são muito pesados. Mesmo assim, creio que alguém terá a coragem de levar um ou dois à socapa, como conforto, como outros levarão um terço ou algo que os possa ajudar a recordar que são humanos, que não fizeram mal a ninguém e que não mereciam esta odisseia.

Regressarão? Como será o regresso, estará lá a sua casa à espera que a chave dê a volta na fechadura, abra a porta e tudo esteja bem? O que será isso de regressar e tudo estar bem? E se regressarem e nada estiver bem...?

Não referi as crianças neste texto. Nem quero...