Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

28.09.22

Desafio "Arte e inspiração" 2.0 #3

Fado na Mouraria


imsilva

transferir.jpeg.jpg

O fado  -  José Malhoa

 

Dizem que se chamavam Amâncio e Adelaide da Facada.

E que podemos nós deduzir desta imagem? Que poderemos nós criar com esta imagem? 

A vida boémia na Lisboa do inicio do séc. XX. O desregramento consentido no vinho e na moral duma época em que uma Mouraria representava homens e mulheres de um país em aprendizagem.

Provavelmente, Amâncio afogava as suas mágoas no fado vadio, no nectar que ajudava a finalizar o dia de (suposto) trabalho, deixando em casa mulher e uma trupe de filhos com que não sabia o que fazer. Felizmente a sua Maria dava conta do recado, melhor mesmo estar fora do caminho.

E a Adelaide da Facada, que me diz esta mulher? Alguém que despudoradamente tentava não ser de ninguém, de sítio algum a que não quisesse pertencer. Adelaide, após ter aprendido pela pior maneira que não é fácil ser feliz, optou pela felicidade gratuita e imediata que não a deixa pensar demasiado em algo para além disso.

E assim, entre um cigarro, uma guitarra que chora, os versos que contam amores, um copo que ajuda ao bem estar, e a companhia de quem os entende, correm as horas que libertam a saudade, os sonhos e as ambições há muito perdidas.

 

Participação no desafio da     Fátima Bento

09.09.22

Guardamos as tuas coisas, e agora...?


imsilva

00e9f144f2f347cfca4fbb6c76e6c98e.jpg

 

Mãe

Guardamos as tuas coisas, os teus brincos, os teus colares, os teus terços, as tuas malas...

Guardamos as tuas roupas que sofregamente aproximamos da cara na tentativa de sentir-te só mais uma vez.

Guardamos os teus rolos do cabelo que tantas recordações nos deixaram aos longo dos anos, religiosamente enrolados à volta das belas madeixas brancas que enfeitavam a tua cabeça.

Guardamos os teus óculos, que te deixavam tão parecida com a que chamávamos a tua irmã gémea, a rainha Isabel II. Imagina que morreu ontem, tinha de ser no mesmo ano que tu.

Mãe, guardei o teu frasco de perfume. Está ali, ao pé de mim, e de vez em quando destapo-o e sinto que entraste na minha casa. Está pertinho do teu menino Jesus, benzido pelo padre a teu pedido, assim que to ofereci.

Como vamos fazer com as gavetas vazias, com os armários sem o teu cheiro, com os cortinados que já não precisam de ser corridos?

Como vamos fazer com os teus pratos, as tuas travessas e terrinas, com os teus copos que davam para 10 mesas de 100 pessoas cada uma?

Mãe, desculpa, mandamos fora as tuas taças plásticas com tampa, onde punhas o arroz doce acabado de fazer, para te certificares que não havia perigo de derrame quando levássemos alguns para casa.

Como vamos fazer com o homem que cá ficou, perdido, mas inteiro, com a coragem de um guerreiro. O homem que aprendeu a viver sozinho sem ter com quem ralhar e discutir o episódio da novela das 18,30?

Mãe, como fazemos com o buraquinho que ficou nos nossos corações depois da tua partida?

Mãe, olhas por nós?

23.05.22

"Para sempre" de José Fanha


imsilva

FB_IMG_1643975610443.jpg

Eu gostava de acordar em cada dia e ter a minha mãe a meu lado. E o meu pai. E a minha avó. E todas as pessoas de quem gosto.
Mas alguns já se foram embora. Para sempre. E isso deixa-me confuso. Porque para sempre é mesmo muito tempo.
Eu consigo perceber o que é uma hora. Percebo dez minutos. Percebo dez segundos que é uma medida do tempo que uma pessoa começa a dizer e já passou. E percebo um dia ou uma semana. Mas para sempre é tão difícil de perceber...
Um dia, o meu pai foi-se embora para sempre. E eu esqueci-me de lhe dizer uma coisa. Nem sei bem que coisa era. Só sei que esta coisa que eu queria dizer ficou-me entalada na garganta. Para sempre.

José Fanha. In. Diário Inventado de Um Menino Já Crescido.

Ilustração de João Fanha

 

13.05.22

Uma carta para alguém

52 semanas de 2022 - Tema 19


imsilva

20220513_100422.jpg

Nesta altura da minha vida, só poderia escrever uma carta para um "alguém".

 

Mãe

Escrevo-te esta carta para ver se me esclareces algumas coisas.

Onde andas, que não te vejo há alguns dias? Passei pelo cemitério e estava lá um sítio cheio de coroas de flores com uma placazinha com o teu nome e a tua fotografia, como é que aquilo foi lá parar? Não é só para as pessoas que morreram? Então, não entendo. Ainda fui à procura de algum responsável por isso, mas não encontrei ninguém. Continuei confusa.

Fui às compras e comprei o champô que tu gostas e as maças que pedes sempre, já lá estão em casa, onde o pai está sozinho porque tu te lembraste de ir passear. 

Volta depressa, estamos todos com saudades tuas, os teus netos também perguntam por ti.

Ah! A tua filha mais velha manda-te um teteréré, e um mando-te um beijinho daqueles repenicados como só nós sabemos dar.

 Isabel.

 

Os desafios da abelha

 

                                                                                

06.05.22

Teimosamente


imsilva

41163bae0e25a19effa9df32059a78af.jpg

 

Lágrimas teimosas rolam,

escorrem pelos cantos que a alma deixa a descoberto

e livres, vão passeando por aqui, por ali e por acolá

envolvendo um coração dorido

deixando um rasto, também teimoso, de tristezas e ânsias

Não encontram caminho a direito

por isso vão ziguezagueando e teimosamente demorando

Se encontrassem o caminho certo

talvez já tivessem levado as dores e as lástimas

talvez já tivessem desertado para algum outro sítio

libertando assim as teimosas angustias do meu coração

por onde a tua imagem passeia

04.05.22

Os meus últimos dias

52 semanas de 2022 / tema 18 Escreve sobre o teu dia


imsilva

20220114_084759.jpg

Andei desaparecida.

Passei por cá no dia da mãe, e deixei testemunho da nossa falta.

Hoje aproveitando o desafio da nossa Abelhinha Ana, vou escrever sobre os meus últimos dias, provavelmente não serão descrições maravilhosas de coisas boas mas serão testemunhos do que nos acontece por lei de vida e por muito que nos custe.

Entre o saber que íamos perder a nossa mãe e o perde-la vai um longo passo. Conseguimos enganar-nos a nós próprios, fingindo que é falso alarme e que não irá acontecer, pobres parvos.

Nestes dias passamos da dor ao ânimo constantemente. O meu pai precisa de nos ver inteiros, e não podemos defraudá-lo. Fomos (somos)uma família de ciganos, a casa esteve sempre cheia, almoços e jantares sempre com alguém a aparecer, mas como éramos sempre muitos, quando alguém aparecia a mais, nunca havia problema porque era só ir buscar mais um prato.

Talvez por não termos tido muito tempo para estarmos sozinhos, nestes últimos dias temos sentido algo a partir-se cá dentro cada vez que percebemos que não tornaremos a vê-la. Ontem passei pelo cemitério sozinha e ralhei com ela, perguntei-lhe o que estava a fazer ali, aquilo não era o seu sítio, o seu lugar era lá em casa, a receber-nos com o seu sorriso e a dizer - então filha?

Acordo a pensar nela, adormeço a pensar nela, e nela penso em todas as outras horas do dia. Assim têm sido os meus dias, dias em que me imagino dentro de um sonho mau do qual vou acordar em qualquer momento, até ao dia em que vou de nariz ao chão e aí talvez com a dor perceba que não estou a sonhar mas a viver uma triste realidade.

 

23.03.22

Pessoas de quem tenho saudades

12° tema de 52 semanasde 2022


imsilva

2237.jpg

 

 

 

 

Esta manhã, não sei bem porquê, lembrei-me de uma pessoa que não vejo há alguns anos, e de repente vi-me rodeada de lembranças de outras tantas, que depois de terem cruzado o meu caminho, por um motivo ou por outro deixei de ver. Algumas, infelizmente nunca mais verei, mas outras, porque simplesmente a vida levou-as por outro caminho e não deixaram como contactá-las. É um belo conjunto de pessoas das mais variadas idades e gêneros.

Esta pessoa que me levou a estes pensamentos, não era perfeita (como ninguém é) mas era interessante e inteligente, e foi alguém que eu gostei de conhecer, e durante os anos em que privamos, tivemos conversas interessantes, não que concordassemos em tudo (e ainda bem) mas aportou-me conhecimentos e bons momentos de convivio.

Infelizmente, como já referi, a vida dá voltas que nem a inteligência consegue controlar e neste momento não sei nada dela, nem encontro quem saiba.

E pronto, isto levou-me ao velho sentimento português, à saudade, saudade de tanta gente com que me cruzei, gente que me orgulho de ter conhecido, gente que me fez bem, gente de quem eu gostei ( que continuo a gostar) e que espero tenham gostado também de mim. Obrigado por terem existido.

Beijinhos meus amigos.

                                   ❤

 

 

Este texto foi escrito e publicado há uns anos, e achei que fazia todo o sentido neste desafio. Portanto esta é a minha participação no desafio da Ana de Deus

29.12.21

O Natal das nossas memórias


imsilva

20211215_112153.jpg

O Natal das nossas memórias

 

Fernanda aconchegou o casaco ao corpo, naquele Dezembro frio mas luminoso que ainda não prometia a neve que nunca mais vira, e continuou a andar, receosa do que iria encontrar uns passos mais à frente. Chegou à Rua de Baixo, o sítio onde não ia há mais de 40 anos. A aldeia de onde saíra com 10 anos de idade, para ir para o Brasil com os pais. O sítio onde ficara o seu coração na companhia dos avós que lhe tinham dado tanto amor e atenção, tantas memórias guardadas com tanto cuidado, sempre com medo que se desvanecessem.

Começou a descer a rua, notando o abandono que marcava aquelas casas que em tempos tinham estado preenchidas com vida, com risos, lágrimas e labutas. E quando finalmente lá chegou, o coração bateu mais forte, as lágrimas soltaram-se e deslizaram pelo seu rosto. Era uma ruína, umas pedras que tinham sido ocupadas por hera e plantas solitárias, e que lembravam imagens de outros tempos felizes e tão importantes na sua vida.Os avós tinham morrido cedo, cada um com a sua maleita, e a casa nunca mais tinha sido habitada. 

A saudade trouxe-lhe as memórias do último Natal que lá passara, antes daquela viajem que a levaria para tão longe. Via a mesa posta com a toalha que religiosamente saia todos os Natais, branca com azevinho bordado, sempre impecável de tão bem tratada que era. Os pratos e os copos do serviço das ocasiões especiais, e todos os acepipes e guloseimas que só a avó sabia fazer. Uma família alargada de tios e primos barulhentos, vindos de todos os cantos do pais, que enchiam a casa de alegria e confusão, e que sem isso não seria a mesma coisa.

Mas isso era o passado, o presente era isto, uma ruína, umas pedras que caladas, gritam nos silêncios de histórias sussurradas nos espaços das pedras que ficaram. Soluços ecoam nos vazios das almas, das presenças que já não estão.

Fernanda senta-se naquele muro que já foi parede, chora de saudade, e depois levanta-se, ergue a cabeça e faz o caminho de volta sentindo-se mais tranquila. Ainda bem que existem memórias...

 

 

29.09.20

Desafio: passa-palavra#2 Saudade


imsilva

065f39c830766825b34486970d2741b5.jpg

Saudade de ti, de mim,de nós

Saudade do que fomos, não do que somos, mas do que poderemos vir a ser

Saudade da vida, do tempo, do sentimento ausente

Saudade de te ver nos meus olhos e de me rever nos teus

Saudade do toque, da cumplicidade, de ser tua, de seres meu

Saudade daquele recomeço que tarda a começar

Saudade de um futuro, aquele futuro que desejamos

Saudade do beijo perdido no universo, onde não estamos

Saudade dos dois sermos um

 

Este texto pertence a este Desafio

10.07.20

Amores maiores


imsilva

20200701_163113.jpg

Amores maiores 

Amores mais doces

Quase substitutos de outros que nunca deixarão de o ser

Entranham-se no coração, apoderam-se e instalam-se na nossa alma comodamente e assentam arraiais

Não são nossos, mas é impossível não o serem

Têm uma força que nos leva às lágrimas, mesmo sem motivos, basta a saudade.