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pessoas e coisas da vida

pessoas e coisas da vida

18.03.22

Destroços e emoções


imsilva

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Vladislav lembrava-se daquele teatro numa ocasião em que, era ele de palmo e meio, fora com o avô ver uma peça "Pedro e o lobo" de Prokofiev. Talvez fosse daí que tivesse nascido a sua paixão pela música.

Hoje era um jovem pianista que começava a ser conhecido na cidade de Kiev, e falado em toda a Ucrânia. Mas, não tinha tido oportunidade de tocar lá, e agora já não o poderia fazer.

Agora só tinha as memórias das belas melodias lá ouvidas ao lado de um avô que também já não estava.

Os seus olhos percorreram as paredes que restavam e sentiu um aperto no peito. Destroem-se casas de cultura como se de um baralho de cartas se tratasse, e não são essas só, são as outras também, as casas que fazem parte da vida do povo, da vida das aldeias, cidades, as casas onde se ensina, as casas onde se tratam os doentes, as casas onde se procura o conforto da fé, as casas de uma sociedade completa.

Haverá alguma desculpa, alguma razão, algum motivo que justifique a destruição dos meios de sobrevivência do ser humano, e do próprio do ser humano que não fez nada para isso merecer?

Vladislav afastou-se acabrunhado, com os olhos postos no chão, envergonhado, não queria ver mais atrocidades cometidas por aqueles que ele pensava serem seus semelhantes.

28.02.22

Vidas em guerra (ou em suspenso)


imsilva

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Como é que se deixa, larga, abandona uma casa em caso de guerra?

O que é que se leva? O que é que se deixa? Fechamos a porta à chave e guarda-mo-la no bolso à espera de voltarmos e a encontrarmos como a deixamos?

Passaram-me estas interrogações pela cabeça e pareceram-me muito ridículas. Mas há milhares de pessoas a fazê-lo presentemente, assim como foi feito durante muitos momentos da história da humanidade.

Como é que se faz isso? Põe-se meia dúzia de roupas numa mala, alguns documentos, uns trocos existentes numa gaveta, o cordão de ouro que pertenceu à nossa mãe ou os brincos que o marido nos ofereceu naquele aniversário e o resto é história?

Largamos as nossas coisas, as nossas mobílias que guardam os nossos pratos, os nossos copos, a cama onde à noite podíamos descansar depois de um dia de labuta, longe de imaginar que um dia não nos deixariam lá dormir? 

Será que deixaríamos as gavetas que guardam as nossa vidas e as nossas recordações abertas ou fechadas?. A nossa "sorte" é que as nossas memórias e vivências podem ir connosco, mas deixamos as estantes repletas com os livros que nos acompanharam, fiéis companheiros de momentos que acreditamos que eram felizes e que não podemos levar porque são muito pesados. Mesmo assim, creio que alguém terá a coragem de levar um ou dois à socapa, como conforto, como outros levarão um terço ou algo que os possa ajudar a recordar que são humanos, que não fizeram mal a ninguém e que não mereciam esta odisseia.

Regressarão? Como será o regresso, estará lá a sua casa à espera que a chave dê a volta na fechadura, abra a porta e tudo esteja bem? O que será isso de regressar e tudo estar bem? E se regressarem e nada estiver bem...?

Não referi as crianças neste texto. Nem quero...