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pessoas e coisas da vida

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10.02.21

Verde escuro

Vamos pintar com palavras? #4


imsilva

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Numa janela verde escuro

 

Debruçada na janela já descascada onde se viam ainda os laivos verdes escuros da cor original, olhava o mundo, a vida, o que já tinha passado, o que acontecia e talvez imaginasse o que lá viria. Ou talvez simplesmente, olhasse.

Sozinha vivia os dias que andavam com tão pouco andamento, que por vezes acreditava que nem tinham passado.

As marcas da sua cara tisnada, que não conseguia dizer a idade, e das suas mãos de quase couro, contavam histórias sem fim, provavelmente não muito felizes, mas já passadas. Histórias que só podiam ser adivinhadas, porque ninguém as conhecia.

Não se conhecia alguém que as tivesse ouvido, não se via alguém que parasse para dar ou receber uma palavra  ou para dois dedos de conversa fiada entre vizinhos. O seu olhar não o permitia.

Ninguém recordava companhia alguma naquela casa que fora sempre tão sozinha. Ninguém recordava a 1º vez que ali a viram, possivelmente há tanto tempo, que os que hoje passam naquela rua, nem teriam ainda nascido.

Mas viam-na ali à janela, como se o ar lhe faltasse lá dentro, e tivesse de o ir buscar lá fora, à janela, aquela janela com a tinta já descascada onde se viam ainda os laivos verdes escuros da tinta original, que dava para a vida, para o mundo, onde ela ficava a olhar todos os dias, ao mesmo tempo que, quem sabe, recordava as histórias que mais ninguém conhecia.

 

Texto no âmbito do Desafio caixa de lapis de cor

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